terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

28 de Fevereiro de 2017.
Terminei a pós-graduação, consegui.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Dos tesouros de cada um, num mundo de ricos e pobres

Com noventa e um anos, ela nao tinha medo de nada. Nem sequer de ser sozinha no mundo ou de estar doente. Guiava-se com um bastão roído pelos bichos, tresandava a urina. Nao tomava medicação alguma e sorria como se tivesse cinco anos e quatro dias. Muito resmungona, e acho que isso era o motor.
Tenho uma irmã com cem anos, seis gatos e um cão.
(...)
Hoje cumpri horas de estagio naquele que é o meu Hospital de referencia, que faz parte da minha formação profissional, e que outra vez volta a ser palco também da minha formação como pessoa. Passei a tarde com as equipas VMER e nao temos noção do quão implicados sao estes profissionais. Conheci gente realmente Bela hoje, e fiquei so assim um bom bocadinho mais a acreditar que ainda ha gente capaz de salvar o nosso mundo.
E mais nao conto, porque nao posso.
Depois de doze dias seguidos de trabalho, nao tenho grande capacidade para pensar. Sei que preciso de descansar, de organizar uma serie de coisas. Mas em tal ponto de cansaço, adquiri como estrategia de sobrevivente so fazer e pensar numa coisa de cada vez.
O meu regresso tem sido pautado por incríveis aprendizagens. Sobre mim mesma, sobre o mundo que me rodeia, sobre as prioridades, sobre o amor ou a falta dele. Tenho aprendido essa verdade terrível: nascemos e morremos sozinhos. Ha uma serie de pessoas no nosso mundo que nem sequer nos salvariam se fosse preciso, ha uma serie de outras pessoas que nem imaginamos como seriam capazes de nos salvar se fosse preciso.
Nao me apaixona, nao me faz feliz, mas sinto-me orgulhosa de mim mesma pelo trabalho que sou capaz de fazer, pelos sacrifícios no meu caminho, por sozinha me bastar financeiramente.
Todos os dias acredito que em algum ponto do caminho Deus vai mostrar-me o lado certo de tudo, de quem foi embora, das portas que se fecharam, das pedras no caminho.
(...)

Flash

A chuva caiu a 27 de Fevereiro com a mesma beleza e intensidade com que vai fazer Sol em algum dia esplendido de Março.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Da incrível natureza humana

Estava atrasadíssima para mais uma reunião frustrada. E sem tempo, parei. Parei a observar aqueles miúdos tão malmente vestidos, a fazerem piruetas de skate no largo da igreja ao cimo de Santa Catarina. Que medo. Nos momentos em que trepavam atrevidamente as escadas fechei os olhos algumas vezes. Pensei nos pais daquelas criaturas; eu que nao sou mãe penso sempre nos pais. Um descuido e haveria cabeças partidas. Mas eles faziam aquilo sem parar, de capuz  a esconder-lhes meio rosto, completamente destemidos e com ar de zangados, de movidos a uma especie de furia.
Eu nunca fui assim, eu nunca fiquei tão completamente sem nada a perder.
Nao sei explicar o que foi que senti ao ver aquele cenário: era o largo da igreja, o vrum vrum dos skates a rolar e o corpo deles como espadas a cortar o ar, em meio de tantos turistas, do eléctrico, dos comercios. Para alem das criticas, aquela catarse pareceu-me pura arte.
Os dias estão luminosos, a cidade fica deslumbrante com estes ares de Primavera.
Os entardeceres mágicos vão do rosa clarinho ate aos laivos alaranjados; os dias cresceram, a roupa pesada ja sobra. Tão bom.
Na medida em que vou envelhecendo, percebo mais as coisas pequeninas. O semáforo abre e fecha e eu continuo parada porque as arvores começam a ter penugem nova ou porque ha uma simetria de luzes e monumentos que me deixa perplexa; fiquei turista para sempre.
Hoje no meu local de trabalho, dentro do edifico havia bruxinhas voadoras. Dei comigo a abrir a porta para o jardim e a soprar uma enquanto pedia um desejo. So pedi Paz.
Ca em casa ate o chorão que nao saia do sitio esta cheio de rebentos de flor. A orquídea esta repleta, vai florir como quem explode. Novas camelias dormem dentro de botões prestes a abrir. Lembrei-me agora que preciso de comprar espadas de S. Jorge, ha algum tempo que cismo em ter um vasinho ca em casa.
Nem da para contar como tudo isto me rejuvenesce, como tudo isto me faz pensar que nada importa tanto; que o curso natural das coisas nao se apequena com gente de mas maneiras ou sentimentos de pouco brilho. Que nas ruas somos presenteados todos os dias, e nem vemos. Que a nossa sorte é sempre maior - um bocadinho maior - do que aquilo que tantas vezes nos parece.
Cada vez gosto mais de fotografia, e cada vez gosto mais do silencio de quem observa e compreende.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

domingo, 19 de fevereiro de 2017


Eu ainda tenho saudades da cidade.
Entretanto passou um ano. Nao conquistei absolutamente nada de novo. Eu apenas voltei.
(...)

Flash








Manhã de domingo na cidade; vesperas de Primavera. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

As imagens mais bonitas do meu dia

Mercearia na Rua Miguel Bombarda, no Porto.

Croissants frescos, esta manhã.

A mercearia com ar de boutique vende as tulipas mais bonitas da cidade.
Os croissants foram feitos pelas mãos de fada de uma amiga.
(...)

Querida B

Sou a tia mais feliz do mundo porque tu te estas a tornar na menina mais bondosa que conheço.
Nao ha estatuto mais nobre do que ser-se boa pessoa, sinto que estas no bom caminho.
Minha Princesa, meu Amor.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Aquele amigo de ha muitas vidas, aquela pessoa com mais de o dobro da minha idade mas que me ilumina como um farol.
Ligou-me para me dizer que teve um acidente de carro, e que foi um susto tão grande; senti-o tremer na voz para depois fazermos uns segundos de silencio; senti-me levar um murro valente no peito. Nem sempre dedicamos aos Amigos o tempo que eles realmente merecem. A vida dos que amamos mantém-nos as janelas abertas, e tantas vezes nem damos pela luz.
(...)
Ja nao via um jogo e bebia um copo de vinho sozinha ha muito tempo.
Mourinho e Ibrahimovic, para mim sao Os genios.

Flash

Fez-me sorrir esta manhã.
Adoro a cidade cheia destes recadinhos de amor, cheios de pos de perlimpimpim, cheios de infancia e de magia, a fazer-nos cócegas na alma. Coisas destas podem salvar-nos num dia bem triste.
Onde?
Numa parede bem feia, entre o Hospital de Santo Antonio e o Palacio de Cristal, em frente ao Museu Soares dos Reis.
Um dia de cada vez, aceitar a vida como ela vem.
(...)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Oração para todos os dias

Que nunca me falte Deus.
E a imensa alegria das coisas pequeninas.
E se for?
Hoje numa conversa com a minha medica, dei comigo a pensar numa serie de coisas. Aquelas coisas que volta e meia todos pensamos. Nos muros altos, nos obstáculos, na nossa vitalidade e nos sonhos que as vezes nunca se cumprem.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O meu presente foi um beijinho, uma boa gargalhada e a promessa de um palacio.
Exactamente o que eu queria ganhar hoje; nem mais, nem menos.
(...)

Nos bastidores

Um homem nada bonito, era feio ate. A rondar os quarenta e cinco, calvo. Na paragem do bus esta manha, no instante em que desatou a chover a chuva toda guardada por cair, e os carros passavam velozes sobre as poças que nos encharcavam ate aos ossos. Ele tinha um saco de plástico branco na mão. Abriu o saco e percebi que era um ramo de flores guardado do temporal. Colocou o saco aberto exposto a chuva e ficou com cara de bobo feliz a olhar para as flores. Possivelmente acreditava que a chuva as faria durar mais, as deixaria mais viçosas.
Notorio que as flores e as gotas grossas de chuva eram para alguém que lhe desalinhava as borboletas.
(...)

Flash



Esta esplendorosa. Nao me canso de olhar para ela.
Tantos anos depois, voltaste ao meu abraço.
Estou tão triste por dentro, tão descrente, que nao consigo pensar sobre nos.
Mas fica; cuida-me, cura-me. Ensina-me sobre o amor porque todos estes anos eu apenas desaprendi, ensina-me como me ensinaste a primeira vez ha tantos anos atras.
Nao sei se ha destino ou nao, nem se vou ser capaz de te amar como amei; nao sei se vai ser possível confiar em ti outra vez.
Mas vamos viver isto assim, bem devagarinho como esta a acontecer. Sem termos que dar satisfações ao mundo ou a alguém. Sem esperarmos nada, nem mesmo um do outro.
(...)

S. Valentim

Acho delicioso comemorar o amor.
Continuo a achar que é um milagre, uma sorte incrível, encontrar a pessoa certa para partilharmos os nossos dias, os nossos medos, as nossas alegrias, as nossas loucuras.
Sejam felizes.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Flash



Porto, Praça da Republica. 
Fevereiro 2017.
Desabrochou a primeira camelia

ANAÏS NIN, in “A Casa do Incesto”
“Na manhã em que me levantei para começar este livro tossi. Algo estava a sair-me da garganta, a estrangular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: Acabo de cuspir o coração.

Existe um instrumento chamado quena que é feito de ossos humanos. Tem origem no culto que um índio dedicou à sua amante. Quando ela morreu ele fez dos seus ossos uma flauta. A quena tem um som mais penetrante, mais persistente do que a flauta vulgar.
Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração."

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Porto eleito melhor destino europeu 2017.
Sabe tao bem.

Bom dia Vida

Acordar cedinho, sem despertador, com a sensação de ter atravessado uma boa noite de descanso.
Abrir os olhos e agradecer quatro coisas: a familia, a saúde, aquelas duas ou tres pessoas, as folgas. Preparar um bom cafe da manha e ficar a ver o vizinho la em baixo a tratar do campo. Gosto de estar sozinha e desta minha paz absolutamente regeneradora.
Esta tarde tenho coisas na agenda mas a primeira manha das minhas quatro folgas deixei livre propositadamente, nao sabia em que estado ia levantar da cama hoje. Liguei a M e consegui hora no cabeleireiro, preciso de cortar este cabelo e ja que acordei com energia, vamos a isso. Mais tarde se calhar pintar as minhas unhas de rosa velho, um pouco de cor educa a alma.
Dias de detox interior, de sossego, de me lamber como fazem os gatos em vésperas de retiro.
Ha uma razão para tudo, eu tenho que aprender que na vida so nos mesmos nos devemos bastar, e que quando viemos ao mundo e choramos o primeiro choro de abertura de pulmões foi porque viver era imperativo. Nao trazíamos sequer conhecimento sobre o que era o amor, as pessoas, os desenganos. E sem sabermos nada disso, vivemos essa primeira fase da vida, que se pode chamar de espanto.
Nao foi para sofrer por quem nao pertence ao mesmo estado vibracional que eu, que vim ao mundo. Ha portas que nunca se abriram para mim, ha portas que eu nao vou mais tentar abrir.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Hoje quando sai do banho fiquei algum tempo a escovar o meu cabelo. Dei-me conta da quantidade de cabelos brancos que ja tenho, dos dezoito que foram ontem, do tempo que nao volta.
Das coisas tolas que vivi, em que acreditei; da gente que passou e que vai passando como num desfile de Carnaval. Tenho vontade de chorar por todas as coisas tristes; nem sequer vale a pena.
Tão difícil a sorte, o amor, a verdade.
(...)

Sexta-feira

Oito dias seguidos a trabalhar. Chegar ao fim da semana e nao sobrar animo para mais nada.
As pessoas dizem que eu tenho sorte, e eu acho que tudo me custa tanto.
(...)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Hoje, numa das ruas mais feias da cidade

"Uns olhos que me olharam com demora,
nao sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida nao teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
(...)"
Antonio Gedeao, Maquina de fogo (1961)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017


"Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes."
José Eduardo Agualusa, in Barroco Tropical

Os grandes dramas Históricos

Fui ver O Silencio, do senhor Scorsese, e que filme extraordinario.
Ha partes da Historia que me surpreendem, como esta faceta dos japoneses também terem tido a sua especie de inquisição que ao contrario da nossa nao foi uma caça as bruxas mas sim aos cristãos. Depois a intensidade psicológica com que exerceram torturas, porque estão longe de ser um povo qualquer, ate nisso.
De resto os ideais dos Homens, a força interior, a luz, que nunca ninguém poderá apagar-nos sem nossa autorização. Seja a religião ou crença que for, mesmo que nos remetam ao silencio total, mesmo que nos anulem.
E o terror de pensar que nos dias de hoje os Homens ainda se perseguem uns aos outros e cometem atrocidades em nome da religião ou da supremacia.
As vezes tenho esperança no nosso mundo:
Apple, Facebook, Google, Microsoft, entre tantas outras empresas com poder, unem-se contra as políticas de imigração do senhor Trump.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

As news do dia

Um joelho que dói tanto, e uma pausa seria para pensar na saúde e no quão importante sao ate mesmo as nossas pestanas.
Uma sociedade com algumas reuniões, boas perspectivas, expectativas serias, investimento pessoal, a dar com os burros na agua. E eu sei la, continuo a agradecer a Deus quando me envia sinais e me afasta das pessoas erradas. Apesar das adversidades, o caminho continua em frente; ha sempre mais mar, mais serra, mais gente.
(...)

Flash




Das chuvas e dos ventos dos últimos dias. Da vida que será sempre e para sempre um enorme exercício de gratidão. Das ultimas folhas sem vida das arvores, que finalmente caem...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Flash


Apesar destes dias de rigoroso Inverno, quase tenho orquídeas e camelias.
Gostava de ser como elas. Crescer em silencio, vingar por dentro apesar das coisas que doem, chegar na estação certa como um trem esperado.
(...)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O Verão invencível de Albert Camus

Praias que ninguém conhece

Sai um coelho da minha cartola: este meu meio dia que me sobra de folga vai ter que valer por dois dias inteirinhos.
Nao para de chover, o cinzento la fora agarra-nos como uma mão madrasta, as arvores movem-se como quem quer desatar a fugir. Sinto-me em letargia, mas nada que um bom banho com sal grosso nao quebre.
Aconteceram coisas boas e eu vou depositar esperança nelas.
Foi Deus que inventou os dias assim cinzentos, e acendeu as luzes algures.
(...)
PAULO VARELA GOMES, in “Revista Granta nº. 5”
MORRER É MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.
Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.
10 de Abril de 2015

"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega.
(...)
Por gestos fez que não com a cabeça e o brinco esquerdo caiu. O que me atrai nos brincos não é as mulheres terem-nos, é o momento em que os prendem na orelha, de queixo esticado e olhos vazios. A mesma expressão, aliás, ao procurarem as chaves na carteira. Parece que se ausentam. Depois voltam a estar ali ao rodarem a fechadura."
Antonio Lobo Antunes, Migalhas
Gatos na Serra

"O meu primeiro gato; o meu pai chegando a casa com um pacote de livros debaixo do braço; o canto dos pássaros ás cinco da manhã; o meu cão Charlie a olhar para o mar; os teus olhos quando estas feliz.
Gloria Grahame na porta do apartamento vendo Bogart ir embora: "I lived a few weeks while you loved me".
Sterlong Hayden dizendo "Don't go away" e a voz de Joan Crawford no escuro: "I haven't moved".
Iris Murdoch a passear no nevoeiro de Londres com Elias Canetti."
A.T.
Parque da Cidade - Porto

"Na escola ensinavam-me toneladas de noções que eu digeria com diligencia, mas que não me fervilhavam nas veias. Via entumescerem-se os gomos na primavera, reluzir a mica no granito: olhava para as minhas próprias mãos e dizia comigo: Compreenderei também isto, compreenderei tudo, mas não como eles querem. Encontrarei um atalho, arranjarei uma gazua, forçarei a porta. 
Era enervante, mesmo nauseabundo, ouvir discursos sobre o problema do ser e do conhecer quando a nossa volta tudo era um mistério que permanecia por desvendar: a madeira vetusta dos bancos, a esfera do Sol vista das janelas e dos telhados, o voo inutil das melgas no ar de junho. 
Vejamos: Seriam capazes de fabricar este mosquito todos os filósofos e todos os exércitos do mundo? Não, nem sequer seriam capazes de o compreender."
Primo Levi
O sistema periodico
"
Uma rua na cidade

"Você há-de dar tudo o que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que você caia. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo."
Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 268.
A minha rua

"Se expor para alguém que não sabemos ao certo o que sente por nós é para os fortes. Para aqueles que sabem que o amor tem uma boa dose de bossa, de poesia. Que mesmo sendo ultra racional, existem momentos em que o amor pede um pouco de falta de recato.
Como diria na ópera Carmem, de Bizet, o amor é uma criança cigana."
Silvia Marques (obviousmagazine)
Museu Soares dos Reis - Porto

"Life will break you. Nobody can protect you from that, and living alone won’t either, for solitude will also break you with its yearning. You have to love. You have to feel. It is the reason you are here on earth. You are here to risk your heart. You are here to be swallowed up. And when it happens that you are broken, or betrayed, or left, or hurt, or death brushes near, let yourself sit by an apple tree and listen to the apples falling all around you in heaps, wasting their sweetness. Tell yourself you tasted as many as you could."
Louise Erdrich, The Painted Drum
Ponte de Lima

"Ameaçam declinar as buganvílias, começam a florir as camélias.
Não voltarei a viver num lugar sem flores."
Joel Neto (em memoria de J. Guilherme)
Magia para tres

Um dia de 2013 em que estava um frio insólito em Maputo, sento-me a comer com um medico suíço. Tem pouco mais de cinquenta anos, chama-se Renee e ja operou o coração de quatro mil crianças desde que esta no activo. E um homem tranquilo, que não chama muito a atenção. Quatro mil operações. No geral, corações diminutos aos que ele deu a oportunidade de bombear sangue quem sabe por mais oitenta anos.
De repente começou a falar-me do seu amor pelo coração.
- Quando nasce uma criança, o coração ja leva tempo a bater. Tem um percurso largo antes da criança nascer. Depois da fecundação os músculos do coração começam a mover-se devagar ao vigésimo oitavo dia. Depois de três dias de treino, o coração começa a latir ao trigésimo primeiro dia.
- Exactamente assim?
- Exactamente assim. Pode haver casos isolados de trinta e dois ou trinta e três dias. Mas se o coração não começa a funcionar antes do trigésimo quinto dia, a criança não vivera.
Quando nasce uma criança o seu coração late ha oito meses. Todos os processos fisiologicos fundamentais os decide desde um primeiro momento esse músculo pertinente que bombeia o sangue pelo corpo sem parar.
(...)
O coração de uma pessoa bombeia tanto sangue em uma vida como agua passa em duas horas pelas cataratas Victoria, no grande salto de agua africano."
Henning Mankell, in Areias movediças
Entre Portugal e a ilha: a minha porta entreaberta.

VICTOR HUGO, in “Os Miseráveis”
" […] Toda a gente há-de ter notado o gosto que têm os gatos de parar e andar a passear entre os dois batentes de uma porta entreaberta. Quem há aí que não tenha dito a algum gato: «Vamos! Entras ou não entras?» Do mesmo modo, há homens que num incidente entreaberto diante deles, têm tendência para ficar indecisos entre duas resoluções, com o risco de serem esmagados, se o destino fecha repentinamente a aventura. Os prudentes em demasia, apesar de gatos ou porque são gatos, correm algumas vezes maior perigo do que os audaciosos. […] "
Festival de palhaços - Fuerteventura

3.
O dia em que nasci meu pai cantava
versos que inventam os pastores do monte
com palavras de lã fiada fina
cordeiro lírio neve tojo fonte
esta é uma velha história de família
para dizer como ele e eu chegámos
à raiz mais profunda do afecto
da qual nunca jamais nos separámos
nem Deus feito menino teve um pai
que o abraçasse e lhe cantasse assim
desde a primeira hora até ao fim
fui vê-lo ao hospital quando morria
olhos parados num sorriso leve
tojo cordeiro lírio fonte neve
Lisboa
28-XII-93
Fernando Assis Pacheco
em "Respiração Assistida".
Edição póstuma organizada por Abel Barros Baptista em 2003.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Hello World

Precisava de parar. De ficar com um par de dias inteiros assim, dedicada com exclusividade ao meu sossego.
Ficar de pijama todo o dia, a arrumar roupas e papeladas. Tomar cafe e comer chocolates encostada ao vidro da janela a namorar a chuva que cai la fora. Ter meia hora para perder, e ficar a ver vespas e abelhas la fora nas minhas plantas. Descobrir que ja tenho flores! Mudar coisas de lugar, ler poesia, e sentir. Pintar as unhas, ver a caixa de email.
Cancelei as horas de estagio e nao sai nem para comprar o jornal. Nao liguei a televisão, o radio as vezes. Gosto do silencio, em todo o caso ha sempre algum gato que mia, o galo do vizinho que nao tem hora para cantar, o sino da igreja a tocar o treze de Maio.
Na próxima semana vou trabalhar oito dias seguidos. Nao tem sobrado grande tempo para nada. As vezes entristeço, sinto-me sozinha, pergunto-me porque que as coisas tem que ser tao difíceis. Tenho saudades das minhas amigas e agora nem sequer tenho a desculpa do mar que nos separa. Conto os tostões e nem pensar em fazer metade das coisas que me apetece fazer. Nao tenho estado atenta a concursos, nao tenho feito pesquisas nem seguido as recomendações da Ordem. Estou apática, tem dias que me sinto adormecida.
Oxalá seja so semente debaixo de terra.
(...)