segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Viver dias assim

Para sempre na memoria aquela gente boa da Serra, que nem sabe que e feliz. Aqueles bichos espertos e naturalmente bem cuidados, aqueles costumes de tanta educacao e trabalho. Aquele silencio que nos choca de frente com o curso natural da vida. A roupa estendida na colina, o cheiro a murta, a buzina do peixeiro, a igreja construida em 1940, as fontes de agua que apetece beber de todas. As mulheres viuvas de luto completo, em que da idade nao podemos adivinhar mais do que a certeza de que rondam os setentas e oitentas, cheias de bencaos sagradas na hora em que nos despedimos, sempre vindas do campo ou a fazer qualquer outra tarefa. Muito frio, muito vinho, boa mesa, alguns lamentos de que viver ali nem sempre e facil ("tem dias"). Nao ha jovens nem criancas; e eu nao compreendo como matamos assim os lugares mais bonitos do mundo. Nao ha stress, nao se percebem invejas, ninguem fala alto, ha um cemiterio muito cuidado e pequenino e uma casa de oracao de portas abertas o dia inteiro.
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Alentejo. A renda romantica da fisionomia de Portugal inteiro. Casinhas simples com portas e janelas encaixilhadas em azul Verao e amarelo Sol. Sobreiros e planicie a perder de vista, gado que visto assim parece sempre tao manso. Sensacao de infinito.
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Lanzarote del Mar. Uma filha bastarda de um amor imenso a soar a amaldicoado entre o mar e Africa. Terra queimada, fogo. Um sentimento de respeito absoluto pelas forcas da natureza. Sabermos-nos pequeninos, filhos do vento e de lugares magicos. Figueiras biblicas. Palmeiras belas, imponentes, isoladas. Tantas fotografias inexplicaveis tiradas com o silencio do olhar.
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Os dois dias no cruzeiro com os pais foram os mais felizes da minha vida. Rimos, dancamos, jogamos cartas, vimos o dia nascer desde a proa. Foi tao simples e tao bom, tao bonito de se viver.

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