segunda-feira, 4 de julho de 2016

Quando era miúda lembro-me que apesar de sempre ter tido muitas preocupações, achar que o mundo e a vida eram intermináveis. Quando morria alguém, a situação era de tal modo abstracta que me parecia que aquilo jamais me aconteceria a mim ou as minhas pessoas. A finitude humana bateu-me a porta no dia em que cumpri dezoito anos. A partir desse dia, todas as coisas se tornaram mortais e efémeras.
Comecei então a observar o que acontece quando alguém morre. Na pós-graduação no outro dia falávamos dos criterios do DSM V, sobre a persistencia do sintoma por um periodo superior a dois meses para que se torne patologia. Dor por alguém pode durar a vida inteira, pretende-se padronizar os timings mas ha gente que morre com quem parte e nem todos se recuperam de uma perda em dois meses. Amputar uma perna e amputar o coração nao sao o mesmo. Nao falo de chorar a vida inteira, minha mãe so chorou o meu irmão vinte anos depois enquanto via um programa na televisão. Falo de doer viver, falo de nascer com quem morre e reaprender a caminhar outra vez. Todas estas coisas se podem fazer num silencio profundo, sem que manuais possam definir o tempo certo.
Curiosamente nestas observações, descobri o que é isso de paz. A morte impõe paz, uma paz grande e branca. Quando sentimos que nao podemos fazer mais nada, quando damos um passo alem da dor, deixam de haver razoes para entrarmos na guerra. Com os outros e connosco. Se pensarmos num plano menos dramático, no nosso dia a dia muitas vezes so ficamos em paz quando cortamos uma serie de coisas, quando "matamos". Ninguém rouba a minha paz, ninguém poda a minha paz. Sou eu a única pessoa que tem poder sobre ela. Mesmo quando tudo acabar um dia, quando eu morrer ou os outros me morrerem, será ela a que fica.
Paz e alma sao-nos dadas, sao coisa do sagrado.
Quem tem, tem; mesmo debaixo da maior tormenta; tem.

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