sexta-feira, 29 de julho de 2016

Os meus dois vizinhos

Vivo num quarto andar. Das traseiras da casa tenho vista privilegiada para dois terrenos cultivados, atidos ao rés-do-chão do predio onde vivo. Isto na cidade, nao sei se sabem, mas é um verdadeiro luxo. Lembro-me muito do meu avo Albano porque quando eu era miúda cheguei a pensar que o meu avo nao dormia pelo facto de jamais o ter visto sair de casa de manhã. Madrugava tão cedo para as cinco horas da manhã ja ter o gado atendido e muitas vidas da quinta ja andadas. Os meus vizinhos, tal como o meu avo, estão sempre ali a trabalhar quando amanhece; tanto faz levantar-me as nove como as seis. Um deles, o mais antigo, ja tem um moderno sistema de rega por aspersão; o outro utiliza uma simples mangueira. Fico fascinada com os processos caseiros que utiliza o segundo vizinho, como garrafões de agua cortados ao meio para provocar efeito de estufa em algumas plantas. O primeiro tem a parcela de terra meticulosamente dividida, em alturas do ano aos olhos parece um quadro fabuloso; o segundo vizinho ainda se esta a organizar. Ambos tem espantalhos, arvores de fruto, so o primeiro tem baloiços para os netos e uma palmeira. Ha os bichos; gosto de observar as galinhas sempre que um campo "morre" e se lhes da oportunidade de devastar o que sobra. Adoro quando fazem uma fogueira para queimar inutilidades. Quando as esposas vem ajudar, sabe tão bem observar como passam horas em silencio num trabalho comum; que coisa mais bela.
Nesta altura do ano em que finda um Julho quente, alguns campos ja cumpriram o objectivo. Ha uns dias, visto de ca de cima das minhas janelas, so havia verde; ao dia de hoje ha grandes parcelas nuas o que me faz pensar que ainda nao chegou Agosto mas o pico do Verão a nivel do cultivo ja iniciou um processo descendente.
Quando vim para ca viver o primeiro campo trabalhado ja existia, mas o terreno do segundo vizinho era apenas um baldio. Sem duvida o melhor projecto de vida quando chega a idade da reforma. Feito por carolice mas com muita dedicação.
Devem ter uns setenta anos ou mais, e eu acho - acho mesmo - que aquilo é que os prende a vida. E que aquilo sim, é que é vida, é que é luxo, é que é sonho.
Eu seria muito feliz a viver no campo, com um companheiro com quem pudesse passar horas em silencio.

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