quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Zé vive enrascado

Quem chega ao aeroporto e entra no metro, percebe imediatamente durante o trajecto o lado economicamente frágil do pais.
No outro dia quando cheguei da ilha, foi inevitável nao contrastar com esse lado deprimido, cinzento, massacrado e cansado do português comum. As velhas de bigode rijo e calcanhar de pedra, tanta gente a falar sozinha, um toxicodependente a tossir desalmadamente e os japoneses que seguravam a mala com uma mão e com a outra esticavam a roupa para tapar o nariz, as conversas muito provincianas, os olhares vazios e perdidos, alguns bonés e t-shirts alusivos a seleção de futebol de Portugal em contraste com uma expressão alegria zero, pobreza evidente numa grande fatia de gente. Muita perturbação mental escancarada, no outro dia vi um homem defecar na rua e um menino com uma pistola de brincar simular disparar a toda a gente dentro do autocarro; juro que chego a sentir estar no pais dos loucos. Mas respiro fundo, sei que nao é assim; estou apenas a reaprender a viver numa cidade grande.
O certo é que muita desta nossa gente de que falo, sao verdadeiros gestores de pequenas economias difíceis - muito difíceis - de gerir. Sao gente que sobrevive com o impensável. Sao vitimas de um sistema que cada vez gera mais ricos e mais pobres. Sao também os eternos viciados dos subsidios, os mestres das economias paralelas. Sao os feios e porcos do Pais das serras e dos monumentos.
Esta gente sao a alma portuguesa na sua essência, a par do Fado, do Vinho, do Cristiano Ronaldo. Essa mendicidade flagrante que se torna postal de algumas cidades grandes, faz parte da vestimenta do nosso Porto moderno. Nunca me vou conformar, algumas realidades chocam-me profundamente.
Mas hoje voltei a andar de metro:
Uma estrangeira de bicicleta levava uma cesta com flores e toda a gente - toda a gente mesmo - ia a olhar para ela (acho que estavam chocados com as flores). Um carteiro com o enorme cesto-mala carregado de cartas. Como estamos no Verão sandalias denunciam os mais incríveis tipos de unhas e pes.  Um trabalhador fardado que sorria a um miúdo desconhecido. Um rapaz com os fones postos, olhos fechados e a balançar a cabeça absorvido pela musica, uma perfeita imagem against terrorism. Uma senhora com aspecto muito cansado a cabecear numa luta com um sono pesado. Grupos de adolescentes todos vestidos de igual.
Ou seja, hoje doeu um bocadinho menos; ou os meus olhos viram e quiseram ver outras coisas.

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