sábado, 9 de julho de 2016

Bom dia Vida

Despertar com um telefonema e todas as queixas do mundo. Saber que é exactamente assim que eu nao quero ser, que nao quero tornar-me. Por mais que viver seja estar metido numa bela enrascada, depende muito de nós tornarmos as coisas mais fáceis. Nesta aventura nunca somos só nós; os outros merecem ás vezes algumas cedências e é esse ponto de egoísmo e intolerancia que me faz sentir exausta do dia quando ainda sao onze horas da manhã.
Eu nao posso fazer mais nada, foram anos de maternidade sem ser mãe. A própria vida tirou-me quase tudo, para que desta forma eu me veja obrigada a fazer de mim a minha única prioridade.
Desta forma aprendo cada vez mais que pessoas convém ou nao na minha vida. Gente que não sabe ser feliz com a alegria alheia, gente que me julga sem saber da minha missa a metade, gente que tem medo de um dia ter que dividir problemas, gente só cinzenta, gente com um umbigo maior do que o coração, gente que vive em círculos fechados, gente que não diz a verdade, que não sente para não se comprometer, gente dessa eu não vou mais deixar entrar na minha vida.
Muito provavelmente eu vou morrer sozinha e a estorvar, como o meu gato. Mas não faz mal, eu pelo menos não vou morrer rodeada de gente-pavão, que em todo o caso esse seria o pior cenário na minha partida.
As pessoas ha que deixa-las ser quem são. Com seus odios e medos, com suas duvidas, seu fel, seus gritos... hoje consegui estar uma hora inteira ao telefone a escutar o filme de terror alheio. A determinada altura ela perguntou "Estás a ouvir-me?".
A mim, as pessoas que eu amei e me abandonaram, foi assim que me ensinaram a escutar o ridículo de mim mesma, deixando-me sozinha todas as vezes que eu mais precisei. Acusam-me de gostar mais de escrever do que de falar. Pois bem, eu explico: falar implica o outro e eu ja nao confio no outro. Falar para que, falar para quem.
A única pessoa com quem eu vou estar em divida vai ser essa pessoa honesta e generosa que realmente me vai querer escutar, que realmente vai ter tempo e paciencia, essa pessoa que eu nem sei se algum dia chegara.
Esta sensação constante de ameaça de desmoronamento que aprendi com a minha familia ja nao me faz entrar em pânico e querer salvar o mundo; eu ja nao vivo so no retrato.
Eles sao todo o amor que eu tenho, que eu conheço, que eu preservo. Sao a melhor parte de mim, serão sempre. Mas eu preciso de ficar leve agora. Quando viajo de avião penso sempre naquela azafama toda das malas e da quinquilharia que levamos em cima: um livro, o ipad, uma manta, um pacote de bolachas, umas all-star ou adidas ultimo modelo. Se cairmos la em baixo e por sorte ate escaparmos, se estivermos no mar e tivermos que sobreviver, de que serve tudo aquilo que la em cima parecia tão importante? De nada, nao serve de nada, nao serve nem mesmo o nosso passaporte. A única coisa que importa é sobreviver.
Eu estou nesse momento da vida.
(...)

Sem comentários:

Enviar um comentário