quinta-feira, 7 de julho de 2016

Os contos da Preta

2016.
Começamos a namorar como dois bons amigos que combinam uma tarde de praia no mes de Julho. Para mim ele representa nao estar sozinha, e eu ate gosto de estar sozinha. Conversamos e eu proibi a palavra amor. Para sempre, ouviste bem? Expressou algo entre riso e sorriso, passou-me devagarinho a mão pelo rosto e nao disse nada. Quando estávamos a descer o morro ate ao arenal junto ao mar, sentei-me a descansar. Sentou-se ao meu lado com ar de quem poderia calcorrear o mundo inteiro a pe.
- Que razoes tens para me deixares entrar na tua vida?
Razoes. Vou so aceitar o que a vida me traz, remar contra a maré deixou-me exausta. A tua honestidade, a tua persistencia, que talvez nao tenhas medo nem brinques com sentimentos. Poucas pessoas tem tanto para oferecer.
- So isso?
So isso.
Sabes, eu nao conheço casais felizes. Minto, conheço dois casais felizes: a Isabel e o Pedro, a Ana e o Ze. Todas aquelas pessoas que se apaixonaram desalmadamente nao ficaram juntas. Nos cafés ao domingo ha muito disso, casais bonitos em silencio; um com as crianças, outro no telemóvel. Nao trocam palavra, nao sorriem um ao outro, nao se olham sequer. Mas vão juntos, comecei a observar melhor, e a vida quase sempre nao brinda mais do que isso: encontrar um companheiro de percurso e ir.
- E tu, que fazes na minha vida?
- Desço o morro ate a praia. Se todos os dias me fizeres a mesma pergunta veras que depressa passarão vinte anos.
Disse isto e abraçou-me como se eu fosse uma arvore.
(...)
Nunca tremo quando me beijas, nunca mais vou tremer na minha vida, sabes disso nao sabes? Mas quando adormeço ao teu lado nada me dói, nao ha mentiras nem dragões para enfrentar quando despertar. Nao ha barreiras as minhas palavras escritas, nunca me dizes que a minha forma de sentir e de viver esta errada. Nao me tens medo. Gosto tanto de te poder dizer que nao te amo e tu encontrares mil formas de me dizeres que esta tudo bem. Nao acho que te conformes com pouco, nao acho que sejamos a boia de salvação um do outro. So és diferente, mais amigo, mais real. Nao fazemos sexo nem fazemos amor, juntamos territorios e eu nao tenho duvidas de que o teu corpo é o de um homem de quem eu gosto. A grande diferença entre ti e todos os outros homens e meus amigos do sexo masculino, é que tu ves em mim um desafio e eu percebo isso. Vivemos, alem do mais, uma fidelidade inabalável.
Quando encosto a minha cabeça no teu peito, entendo que seria um bom lugar para morar, para morrer. E fico.

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