terça-feira, 26 de julho de 2016

A mãe ligou-me a chorar. Contou que uma vizinha a viu assim e lhe disse que nao é bom chorar pelos bichos, que traz ma sorte na vida.
Garfield foi um herói durante dez anos. Aturou-nos todos os dias, intensivamente, com toda a paciencia e amor que se pode ter por alguém. Garfield foi tão fiel, em alguns momentos pontuais foi quase uma especie de guru que tivemos em casa. Minha mãe chamava-o de "meu amante" porque dormia sestas com ela, via televisão com ela, depois do jantar esperava que ela ordenasse a cozinha para se retirarem juntos, se ela adoecesse ficava aos pes dela em modo de protesto com a vida sem comer ate ela melhorar. Em dez anos Garfield so se zangou uma vez, uma única vez numa vida inteira. Ele gostava das plantas, do sol das manhas, da sombra da tarde, muito da noite, da hora do jantar porque estávamos todos em casa. Tinha noia por agua de azeitonas e fiambre de peru. So bebia agua corrente desde o gargalo de uma garrafa, teve camas confortáveis mas preferiu sempre as nossas. Tinha uma planta preferida, das mais de trinta que a minha mae tem. Todas as coisas novas que chegavam em casa, ele achava que eram para ele. Como um menino pequeno, pedia festas, vinha arranca-las das nossas mãos. Garfield nao tinha comportamento de gato nem de cão nem de peixe nem de gente, Garfield era Garfield. Nunca mais teremos outro igual, nunca mais uns olhos vão olhar para mim daquela maneira.
(...)
Nossa vida sem ele fica mesmo mais vazia vizinha, deixe minha mãe chorar, alguém como Garfield tem que ser chorado.

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