sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ontem, numa cafeteria do Pingo Doce, estava eu a fazer o meu pedido quando se aproximou uma senhora idosa, com a aparência física muito descuidada, de tal maneira que fiquei com a ideia de ser sem-abrigo. Olhou para a montra dos pasteis e disse, num brasileiro de interior:
- Fio me da un copo de agua por favor? E um copo de leite morninho, mas me diz primeiro quanto custa.
O rapaz que estava a atender trocou um olhar comigo e eu disse-lhe que desse o copo de leite morno a senhora e que acrescentasse na minha conta. Nisto a senhora termina de beber o copo de agua e diz:
- Fio ja não quero o leite não, fiquei cheia com a agua.
Olha para mim, sorri e diz-me:
- Comi umas bolachinhas de agua e sal antes e agora com a agua ja não tem espaço para leite não.
Entretanto continuou a olhar para a montra e a contar dinheiro que tinha no bolso.
- Fio me diz quanto custa um pãozinho simples.
- Dezassete centimos.
Ela perguntou dez vezes a mesma coisa. Enquanto contava as moedas reparei nas unhas, eram mais bem garras. O rapaz perguntou se queria o pão com manteiga e ela disse que não.
- Pãozinho simples mesmo.
Guardou o pão nuns sacos que trazia, e despediu-se do rapaz.
- Fio ate amanha, que Deus te guarde.
Fiquei ali sentada a ler uma revista e a pensar nisto que acabava de ver. Quanta pobreza, quanta fome ha neste Portugal da Europa. Entretanto o rapaz veio recolher o tabuleiro e perguntei-lhe se aquela senhora vinha ali todos os dias, ao que ele me respondeu que ultimamente sim. Estou desempregada e não sei o meu dia de amanha, mas confesso que pensei em dizer-lhe que deixaria pago todos os dias um copo de leite morno para quando ela aparecesse. Antes disto diz o rapaz:
- As vezes tinha pena dela e guardava-lhe os sacos aqui na cafeteria, vem sempre tão carregada. Mas um dia tinha roubado uma caixa de chicletes no supermercado e os sacos estavam comigo; nunca mais me atrevi porque corri risco de perder o meu trabalho.
Pode ser. Estas pessoas são sobreviventes, o outro importa pouco. Escusado será dizer que não disse mais nada sobre as minhas intenções de boa samaritana.
Mas ela estava com fome. Bebeu aquele copo de agua de um so gole para esconder uma fome que lhe saltava pelo olhar. Tem muita idade, ou aparenta. Esta fora do seu pais.
Roubou as chicletes, podia ter roubado um pão. Mas as chicletes se calhar vendia e dava-lhe para três pães. Não sei, digo eu.
O luxo de nos podermos sentar numa confeitaria nos dias de hoje, tomarmos um cafe com leite e lermos um jornal diário com tranquilidade, foi evidente para mim ontem. Termos um trabalho, uns objectivos, uma certa sanidade mental, uma casa para onde voltar todos os dias, uma família que nos espera; tudo isso são grandes razoes para nos sentirmos gratos pela nossa sorte e pelo nosso esforço.
Resta-me acrescentar que esta senhora era simpática e ate mesmo dócil. Podem ser armas que utiliza no seu dia a dia, mas mesmo que sejam são excelentes armas de sobrevivência. Nem toda a gente, com melhores condições de vida, as sabe utilizar.

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