sexta-feira, 20 de maio de 2016

Adenda ao post anterior

You can sleep. Sleep in my arms. 
Like a baby bird. 
Like a broom among brooms... 
in a broom closet. 
Like a tiny parrot. 
Like a whistle. 
Like a little song. 
A song sung by a forest... 
within a forest... 
a thousand years ago.

Fragment taken from the 1988 film, based on the novel by Milan Kundera "The Unbearable Lightness of Being", directed by Philip Kaufman. The poem was written specifically for the film by Kundera.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Paradoxo

Na medida em que as coisas vão ficando mais difíceis, eu vou ficando mais leve.

Conversa debaixo de um guarda-chuva

Hoje, na rua, encontrei a dona L.V., uma senhora com setenta e cinco anos, que ha uns bons anos me fez uma replica perfeita a óleo, de O Beijo, de Gustav Klimt. Deixou de pintar, por causa das deformações nas mãos. Esta sem dentes, e tem muita tristeza no olhar. Contou-me uma bela historia de amor que viveu ha uns anos, e sem saber deu-me muito animo para domesticar um bichinho que me anda ca a mordiscar o coração.
Nunca me esqueci dela, mas não esperava encontra-la. Se calhar so hoje, cumprimos verdadeiramente a missão que tínhamos na vida uma da outra.

domingo, 8 de maio de 2016

Adenda ao post anterior

Depois de tomar a decisão de não se suicidar, depois de escrever este texto, o Paulo ainda viveu mais um ano. Faleceu no ultimo dia 30 de Abril.

sábado, 7 de maio de 2016

A experiência do Paulo

PAULO VARELA GOMES, in “Revista Granta nº. 5”
MORRER É MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.
São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.
Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.
Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.
Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.
Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.
Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.
Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.
Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”
Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?
A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.
Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.
Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.
E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.
Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.
Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.
Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.
Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.
Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.
Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.
Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:
“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.
10 de Abril de 2015

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A meteorologia anuncia dez dias seguidos de chuva e céu cinzento. Eu que ja ando aborrecida, corro riscos de ficar ainda mais aborrecida.
Mas as plantinhas la fora parece que estão bem contentes. Ontem plantei um chorão e posso jurar que ele ja cresceu.

Flash




Sobre a beleza

Ontem assisti a um recital de piano.
Na plateia, relativamente perto de mim, estava sentado um senhor que tem o rosto deformado, de cor intensa violeta rosáceo; figura bem conhecida da cidade. No espaço destes oito anos sem o ver, creio que o problema de que padece alastrou significativamente. Fica difícil imaginar uma conversação mantendo o olhar normal. Apercebi-me que ate o simples gesto de assoar o nariz e algo complicado para ele.
Mas sabem uma coisa, observei-lhe as mãos.
Acho que são as mais bonitas que vi em muitos anos.
(...)
Ontem, numa cafeteria do Pingo Doce, estava eu a fazer o meu pedido quando se aproximou uma senhora idosa, com a aparência física muito descuidada, de tal maneira que fiquei com a ideia de ser sem-abrigo. Olhou para a montra dos pasteis e disse, num brasileiro de interior:
- Fio me da un copo de agua por favor? E um copo de leite morninho, mas me diz primeiro quanto custa.
O rapaz que estava a atender trocou um olhar comigo e eu disse-lhe que desse o copo de leite morno a senhora e que acrescentasse na minha conta. Nisto a senhora termina de beber o copo de agua e diz:
- Fio ja não quero o leite não, fiquei cheia com a agua.
Olha para mim, sorri e diz-me:
- Comi umas bolachinhas de agua e sal antes e agora com a agua ja não tem espaço para leite não.
Entretanto continuou a olhar para a montra e a contar dinheiro que tinha no bolso.
- Fio me diz quanto custa um pãozinho simples.
- Dezassete centimos.
Ela perguntou dez vezes a mesma coisa. Enquanto contava as moedas reparei nas unhas, eram mais bem garras. O rapaz perguntou se queria o pão com manteiga e ela disse que não.
- Pãozinho simples mesmo.
Guardou o pão nuns sacos que trazia, e despediu-se do rapaz.
- Fio ate amanha, que Deus te guarde.
Fiquei ali sentada a ler uma revista e a pensar nisto que acabava de ver. Quanta pobreza, quanta fome ha neste Portugal da Europa. Entretanto o rapaz veio recolher o tabuleiro e perguntei-lhe se aquela senhora vinha ali todos os dias, ao que ele me respondeu que ultimamente sim. Estou desempregada e não sei o meu dia de amanha, mas confesso que pensei em dizer-lhe que deixaria pago todos os dias um copo de leite morno para quando ela aparecesse. Antes disto diz o rapaz:
- As vezes tinha pena dela e guardava-lhe os sacos aqui na cafeteria, vem sempre tão carregada. Mas um dia tinha roubado uma caixa de chicletes no supermercado e os sacos estavam comigo; nunca mais me atrevi porque corri risco de perder o meu trabalho.
Pode ser. Estas pessoas são sobreviventes, o outro importa pouco. Escusado será dizer que não disse mais nada sobre as minhas intenções de boa samaritana.
Mas ela estava com fome. Bebeu aquele copo de agua de um so gole para esconder uma fome que lhe saltava pelo olhar. Tem muita idade, ou aparenta. Esta fora do seu pais.
Roubou as chicletes, podia ter roubado um pão. Mas as chicletes se calhar vendia e dava-lhe para três pães. Não sei, digo eu.
O luxo de nos podermos sentar numa confeitaria nos dias de hoje, tomarmos um cafe com leite e lermos um jornal diário com tranquilidade, foi evidente para mim ontem. Termos um trabalho, uns objectivos, uma certa sanidade mental, uma casa para onde voltar todos os dias, uma família que nos espera; tudo isso são grandes razoes para nos sentirmos gratos pela nossa sorte e pelo nosso esforço.
Resta-me acrescentar que esta senhora era simpática e ate mesmo dócil. Podem ser armas que utiliza no seu dia a dia, mas mesmo que sejam são excelentes armas de sobrevivência. Nem toda a gente, com melhores condições de vida, as sabe utilizar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Patrimonio emocional

Esta manha entrou na loja de costura da minha mãe, uma velhinha simpática.
Tem uma boneca para vestir, uma boneca com mais de cem anos. Foi da mãe do marido dela, depois dela. Quando a filha casou, mandou fazer um vestido para a boneca com um retalho do tecido do vestido de noiva da filha. A filha separou-se e ja não quer a boneca em cima da cama.
Esta na hora de ganhar um traje novo, a senhora quer um vestido de saia muito rodada, uma espécie de traje real.
Eu adoro as pessoas que se reinventam, que inauguram novas fases com pompa e circunstancia. E sobretudo, que transmitem as novas gerações valores como a beleza e o afecto.

Flash

Ontem, 21 horas. Desde a janela da minha marquise.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Fiz um exercício, sobre as pessoas da minha semana. Aquelas duas ou três tao grandes como a luz que acende as manhas do mundo. Curioso: essas pessoas são ou foram, também elas, pessoas particularmente inquietas. Não sei se alguma vez desanimaram, sei que não deixaram de acreditar no lado belo da vida, não perderam sua índole alegre.

Dos dias (e da primeira mudança de pele)

Hoje a ler uma revista antiga, dessas que acompanham o jornal no fim de semana, ausentei-me um pouco das minhas preocupações actuais. Fiquei ali sentada a ler historias de vida de mulheres monumento. Senhoras distinguidas com prémios nacionais e internacionais. Todas elas coincidem em alguns aspectos: grande capacidade a nível de decisão, algures no tempo tiveram que fazer escolhas difíceis, um casamento estável e longo com casos de mais de meio século de partilha e companheirismo.
Depois de ler o artigo fiquei com vontade de superar.
Pessoas como eu, por defeito ou acerto de natureza, sempre vão ter dentro do peito um bichinho roedor, sempre vão sentir ali algo que se move, que pica, que inquieta e que obriga a mudar de posição.
Eu perdi todas as primaveras dos últimos oito anos. Agora olho para as papoilas no parque da cidade e sinto orgulho por ter sabido voltar para elas. Olho a minha volta e vejo filhos barulhentos e alegres na casa dos meus amigos, vejo que alguns que eram melancólicos ja não tem mais tempo para luxos desses. A maior parte da gente ja quase nem se questiona por coisa nenhuma. Mas algo estranho nessa gente, me surpreende: são felizes. Não ha nenhuma tragédia que lhes possa acontecer, sozinhos. Existe qualquer coisa tão grande como por ter filhos nunca mais se poder parar na estrada por preguiça ou tristeza. Entre tantas outras coisas.
Ainda fico parada em Santa Catarina como se aquilo tudo fosse magia. E vem ai o tempo das cerejas, quanta emoção.
Mas sinto-me, pela primeira vez, passar pela vida e vê-la passar, com a mesma irresponsabilidade juvenil de quem faz Erasmus. Olho para a minha vida vida e não é isto, olho para a vida deles e também não é aquilo.
(...)

Flash