quinta-feira, 28 de abril de 2016

Alzheimer

"I was a woman, long time ago". Li num poema escrito por uma mulher Síria, refugiada. 
Sempre tive orgulho nos direitos humanos que a nossa Europa salvaguardava, até que, há umas semanas atrás me encontro a regressar da ilha de lesbos, a sobrevoar o Mediterrâneo e pela janela me acompanha o barco que transportava 5000 pessoas para fora da ilha para, no dia seguinte, iniciarem as novas regras da união europeia - o famoso acordo UE/Turquia. o barco da vergonha. Desde esse dia procuro reflectir sobre o que vi, senti, testemunhei. As imagens não me largam. No meu coração,esse foi o dia em que chorei pela justiça. Não escrevi logo sobre esta perda para a amadurecer, talvez não fosse bem o que vi, não podia ser. Mas...Continuamos sem saber onde estão os direitos humanos, onde está a justiça. foram embora sem dizer adeus. E enquanto choro pela justiça, lágrimas do nada, recordo um casal que conheci numa noite no "Better Days for Moria":
Fugiram do Afeganistão depois de serem baleados, dentro de casa, durante um conflito na zona.O seu primeiro filho, de 2 meses, não resistiu e no colo da mãe morreu baleado. A Mãe ficou muito ferida mas recuperou. O Pai sobreviveu paralisado na zona esquerda do corpo. Ficaram à espera do segundo filho e não podiam ficar ali. Fugiram deixando para trás a família de ambos, tudo.
A Mãe, com muita dor, disse-me que não tinha fotos do primeiro filho. As cicatrizes desta Mãe não me saem do coração. Não sei onde estão..devem ter partido no barco e por isso estarão algures num campo no norte da Grécia (em indomeni, quem sabe) ou sido obrigados a retornar à Turquia.
Já passou mais de um mês desde este dia. O bebé deve ter nascido e quero dizer-lhe que é bem vindo. És Bem- Vindo, pequenino!
Não podemos parar, não podemos parar.
É que..quando alguém te mostra as suas cicatrizes, ficas responsável por elas."


Joana Morais e Castro

domingo, 24 de abril de 2016

Flash

Primavera

Do que me comove

O vigesimo oitavo dia

"Um dia de 2013 em que estava um frio insólito em Maputo, sento-me a comer com um medico suíço. Tem pouco mais de cinquenta anos, chama-se Renee e ja operou o coração de quatro mil crianças desde que esta no activo. E um homem tranquilo, que não chama muito a atenção. Quatro mil operações. No geral, corações diminutos aos que ele deu a oportunidade de bombear sangue quem sabe por mais oitenta anos.
De repente começou a falar-me do seu amor pelo coração.
- Quando nasce uma criança, o coração ja leva tempo a bater. Tem um percurso largo antes da criança nascer. Depois da fecundação os músculos do coração começam a mover-se devagar ao vigésimo oitavo dia. Depois de três dias de treino, o coração começa a latir ao trigésimo primeiro dia.
- Exactamente assim?
- Exactamente assim. Pode haver casos isolados de trinta e dois ou trinta e três dias. Mas se o coração não começa a funcionar antes do trigésimo quinto dia, a criança não vivera.
Quando nasce uma criança o seu coração late ha oito meses. Todos os processos fisiologicos fundamentais os decide desde um primeiro momento esse músculo pertinente que bombeia o sangue pelo corpo sem parar.
O coração de uma pessoa bombeia tanto sangue em uma vida como agua passa em duas horas pelas cataratas Victoria, no grande salto de agua africano."

Henning Mankell, in Areias movediças
Depois vejo as imagens dos refugiados, a caminhar sobre linhas de caminhos de ferro, com crianças as costas, sem ter sequer uma casa onde chegar. E pergunto-me o que tem de comum estas pessoas com quem chega a casa de umas ferias nas Maldivas.
Sao tantas historias tristes que morrem-me as palavras antes de argumentar.
Deve ser por isso que não me sinto em paz em nenhum lugar do mundo. A paz carrego-a dentro de mim, fora ja não a encontro.

Sobre o sismo no Nepal, ha um ano atras

As vezes ponho-me a pensar. De que fibra são feitas essas pessoas que perderam tudo na vida, se nelas ha algo comum a toda esta gente bonita e apressada no metro da cidade. No que que eu, desempregada, longe da família e com mais um óbito amoroso, posso ter em comum com elas.
Perder a família, a casa, o trabalho e no caso das catástrofes também os amigos, os vizinhos e ate mesmo a estrutura de uma cidade, de um pais ou de uma ilha; perder tudo, absolutamente tudo. Alguns ate ficam descalços e esfarrapados porque ja antes da perda, eram pobres. Essas pessoas mais do que sobrevivem, elas vivem. Sempre me impressionou esse limite no ser humano. Mais ate do que a morte, porque ao morrer ja não ha nada para superar.

Do Portugal dos para sempre pequeninos

Um destes dias deparei-me com um espectáculo de rua, gratuito.
Uma mãe que perdeu a mão da sua criança, corria atras do nem meia dúzia de anos de gente, e gritava a plenos pulmões:
- Olha que vem ai os ciganos e levam-te!

Quanta ignorancia na forma de educar.

Seremos sempre susceptíveis, seremos sempre frágeis

Todos.
Quando achamos que aprendemos muito sobre determinado assunto, surge alguém que nos demonstra que não aprendemos metade. A vida, curiosamente, esta feita de gigantes e anões.
(...)

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Flash


 




Primeiro dia de tempestade

E eu so precisava da minha sobrinha e do meu gato.
Não ha no mundo inteiro energia mais limpa e pura do que a deles.

Se eu nao tivesse vindo

Não teria como crescer tudo o que eu cresci nestes três meses, não teria como ter aprendido algumas verdades grandes e difíceis, mas essenciais.

domingo, 17 de abril de 2016

Da minha semana

No mesmo dia, reencontrei um senhor verdadeiramente marcante na minha formação profissional - alguém que eu não via faz quinze anos; no fim da tarde do mesmo dia recebi o telefonema de outro gigante na minha historia, alguém que nem sequer mora na mesma cidade que eu, e que me ligou so para mandar um beijinho coroado de animo.
Sinais chovem do ceu.
Sai para comprar uma planta. Encontrei a florista triste, a piar para uma gaiola gigante onde estavam dois pássaros sem a alegria efusiva de um cão ou o olhar penetrante de um gato; estavam encolhidos, como quem tem frio.
Contou-me que tinha morrido um:
- Era o marido dela. E você não sabe o que ela tem chorado, a minha pequena... so quem conhece os bichos, ha que ver como eles sentem!
(...)

domingo, 10 de abril de 2016

sábado, 9 de abril de 2016

Destaque nas noticias de hoje

"Nunca houve tantos portugueses emigrados."
Felizmente eu não faço parte desse movimento que caracteriza a actualidade econômico-social do meu pais. Fui para fora ha oito anos atras, quando todo o meu coração me pedia que batesse asas e voasse. Queria conhecer mundo, crescer, adaptar-me era uma espécie de brincadeira aos adultos. Voltei pelo mesmo impulso mas com a maturidade das certezas e a paixão de querer adormecer e despertar o resto da minha vida na minha cidade.
Voltei quando tantos saem...

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quero trazer para casa lavanda e jasmin.
Sinto falta de dias de sol, não de dias que espreitam mas de dias que ficam, que moram.
Quero a sorte e a luz das janelas abertas, o silencio e a beleza de toda a vida que cresce por estes dias.
Ha tanta magia nas primaveras e nas casas felizes.

Gostar de alguém outra vez

Gostar muito.
Sem planear, sem esperar.
Deixar de sentir-me so minha e dos meus, e ser um bocadinho dele também.
Gostar da rocha que e essa pessoa, da sinceridade que lhe encontro nas poucas palavras; sentir electricidade de alta voltagem cada vez que fica perto.
Não existe amanha, não existe palavra Amor, mas existe um caminho e uma vontade tao grande que me emociona.
Sentir outra vez, sentir assim, sentir coisas novas (totalmente novas).
(...)

Passaram dois meses

Ainda vivo embasbacada pela cidade.
Caminhar a beira rio, ver todos aqueles turistas e sentir que fiquei turista para sempre.
Ainda não caminhei sozinha uma manha junto ao mar. Ainda não entrei no mercado do Bolhao que para mim sera sempre um lugar que me aproxima da minha mae, esteja ela onde estiver.
Ainda fico feliz e não conto a ninguém a emoção que sinto ao comer broa de milho.
(...)

Lidar com o desemprego aos 37

Lidar com isso e saber, e confiar, que somos gente de muitas competências e de garra.
Recomeçar implica crescer, ponderar, aprender, e algo um bocadinho mais dificil: aprender de novo.
Confesso que tenho dormido horas sem fim, manhas inteiras. Terminei um livro e vou no segundo em castelhano. Quem trabalhou vinte anos e dos quais os últimos oito foram de alguma ginastica mental levada ao limite, não se importa de ficar assim algum tempo. Tenho direito a estes dias de gloria, de trem parado sem pressa. Preguiçosa como uma gata obesa, mas sempre com a certeza de que assim não se pode viver uma vida inteira.
Eu sei que esta na hora. Esta na hora de partir ao encontro de mim; preciso de trabalhar para ficar mais perto de ser feliz.

domingo, 3 de abril de 2016

A mãe esta tão magra, e o gato também.
Eu vou provando de ser feliz, meio sem sentir o pe no chão. Se parar para pensar corro o risco de ficar triste, de morrer de saudades, de deixar de sentir estes dias de chuva e frio como o meu primeiro inverno dos últimos oito anos.