domingo, 27 de março de 2016

Domingo de Páscoa longe da familia.

sábado, 26 de março de 2016

Chegou-me uma fotografia das minhas plantas, as que deixei na ilha.
Estao tao bonitas, sobreviveram.
(...)

domingo, 20 de março de 2016

“Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto.”

Caio Fernando Abreu

sábado, 19 de março de 2016

Dia do pai

Dia da minha mae.
Foi ela a gravata la de casa. Foi ela que nos criou aos quatro e que nos deu todo o amor que havia no ser dela, e o que não havia ela inventou e buscou debaixo de pedras. Foi ela que nos limpou o ranho e nos deu ralhetes por causa da escola, que nos penteou com pressa e nos catou os piolhos. Foi ela que contou os tostoes e teve que escolher para qual dos quatro comprar sapatos, foi ela que nos acalmou a febre na nossa infância e ainda hoje e ela que o faz como ninguém. A mae das canjas com hortelã, a mae das meias de malha grossas no inverno, a mae de tantas lagrimas, a mae de rosto belo e cigarro na boca, a mae guerreira. Foi ela sozinha quem teve que enfrentar natais, quem nos esfregou Vicks no peito por debaixo das camisolas interiores antes de dormirmos. Foi ela que foi comigo a universidade ver se o meu nome constava na lista dos aprovados, foi ela que me comprou os primeiros pensos higienicos e me ajudou a ser a mulher que sou hoje. Com as suas falhas e ausências mas ela foi a melhor do mundo. Quatro criancinhas, quatro fodidas criancinhas a espera de terem tudo o que todas as outras tinham e como todas as outras também a viverem um 19 de marco uma vez por ano. Ninguém substitui um bom pai, mas a minha mae, no nosso caso, deixem-me que vos diga, substituiu quase uma família inteira.
Foi, considero agora que estou quase nos quarenta, um milagre ter tido aquela mae, que foi também - e ainda e - o melhor pai do mundo.
Um beijo grande, sejam bons pais.

terça-feira, 15 de março de 2016

A lingua de nenhures

Hoje pela primeira vez na minha vida sem que tenha sido numa aula de português, fui corrigida num erro crasso ao falar. Curiosamente não fiquei envergonhada, percebi que algum castelhano me ficou a bailar aqui na mente e que muito possivelmente quando for bem velhinha fale uma língua que não existe, saída de uma terra e a caminho de outra.

O senhor Antonio

Tao parecido com o Nicolau Breyner. Trabalha na confeitaria ha mais de vinte e quatro anos, diz ele que tem mais de dois mil domingos de trabalho no lombo. Conheço-o ali, sempre com a mesma postura, ha uns quinze anos. Amável, especialmente alegre, dedicado. Foi uma das pessoas de quem senti falta durante os oito anos que vivi fora de Portugal. Voltei e nada mudou, o senhor Antonio continua com o mesmo brilho próprio. Ele tem pouca altura mas eu vejo-o tao grande, as vezes vou a confeitaria, peco um cafe com leite, e fico so ali sentada a observa-lo trabalhar.
Tao bom haver pessoas assim no nosso mundo...
Quando de repente morre alguém como Nicolau Breyer, percebemos o que significa ficar mais pobre de forma irremediável. O que me comove, são todas aquelas coisas que se repetem na boca dos amigos mais próximos: que ele era um homem generoso e alegre.
Talvez sejam essas as duas qualidades mais grandes no ser humano.
(...)

Flash

Those are the days
Tenho saudades do mar. Do vento da ilha.Tenho muitas saudades do cheiro da minha mae e do toque das maos pequeninas da minha sobrinha.
Em dias como o de hoje, sinto que ja sai faz tempo, mas que ainda não cheguei.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ja nem lembrava mais como sabe bem voar assim, sem bagagem, so com o sonho de chegar, de conhecer, de sair rasando as coisas engraçadas e pequenas do dia a dia.
(...)
UMA MULHER 

Uma mulher caminha nua
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte aonde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas, a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora

Poema de Bruna Lombardi, do livro "O Perigo do Dragão"

sábado, 5 de março de 2016