domingo, 28 de fevereiro de 2016

Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação? Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos Fingir que hoje é domingo, Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar Vamos criar beijo novo, carinho novo, Vamos, amor?
(...)
Vinicius de Moraes

Flash










sábado, 27 de fevereiro de 2016

A beleza de sentir

"Fui esperá-la ao cais. Embora fosse totalmente diferente, o barco que acabara de encostar à terra fez-me lembrar um conto de Mark Twain e aquela embarcação a vapor que atravessa o Mississipi nos seus contos do Tom Sawyer. Talvez seja o meu lado lírico, pensei. Na verdade, o que eu estava a ver era apenas um cacilheiro. O Sol batia-lhe por trás e, por isso, reconheci-a apenas pela silhueta. Fiz-lhe um gesto com a mão como que a dizer "estou aqui" e uma série de passageiros olhou na minha direcção. Talvez ali, naquele lugar e momento, houvesse mais umas dezenas de almas com um primeiro encontro marcado, à procura de alguém que fizesse um gesto igual ao meu.
Ao abraçá-la percebi isso mesmo. Pelo canto do olho vi uma série de abraços tão iguais e tão diferentes quanto o nosso. Por isso fechei os olhos por dois segundos, para que o meu pudesse ser só para mim. Quando a larguei, já só estávamos os três no mundo: eu, ela e a cidade.
E é sobre isso que eu quero escrever. Sobre a cidade.
Quando a deixei de novo no cais, ao fim da tarde, já o Sol se encontrava no outro extremo do horizonte. Provavelmente andara louco, lá em cima, à nossa procura nas ruas esguias da urbe. Fiquei a ver o barco desaparecer no rio de prata durante algum tempo e, quando finalmente me voltei, a cidade não era a mesma.
É que quando um lugar testemunha um abraço, passa a fazer parte desse momento para sempre. Se lá voltarmos, um dia mais tarde, esse lugar segreda-nos a recordação que temos dele. É como se esse abraço fosse um carimbo no tempo e no espaço em simultâneo.
Mais tarde, podemos pedir ao tempo que se esqueça dele, mas nunca o podemos pedir a um lugar. No que diz respeito ao Amor, o espaço combate o tempo."

http://naocompreendoasmulheres.blogspot.pt

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Desencontros

Uma vez fiquei quatro anos com uma pessoa. Foi o tempo mais largo, mais vivido, que partilhei com alguém. Ele, por causa disso, foi muito mais gente na minha vida do que apenas o meu amor. Hoje tive um pensamento simples sobre estas coisas, sobre porque que as vezes - muito raramente - acontecem assim. Porque duas pessoas que se apaixonam ao mesmo tempo cronometrado, com a mesma intensidade e paixão, com a mesma curiosidade, com exactamente o mesmo desarme, são totalmente e a olho nu um caso serio.
Nunca antes me tinha acontecido de coincidir desta forma no tempo com alguém. Nunca mais, depois dele, voltei a coincidir desta forma com alguém. Ou gosto mais, ou gosto menos, ou tenho mais medo, ou ele tem mais medo, ou ele sente fisico e eu não. Podemos sentir as mesmas coisas mas em tempos desencontrados.
Ai mora a diferença; toda.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O rapaz cego na paragem de autocarro

Percebeu o meu perfume e fez uma expressão bonita.
Era assim que devíamos perceber, sentir, ver chegar as pessoas.
(...)

Lugares

La em cima na serra, as pessoas são livres.
Os homens não andam todos vestidos com calças beijes como os homens aqui na cidade. As roupas são estendidas fora de casa e em todas as cordas ha ceroulas. As velhinhas vestem de luto e são alegres, despedem-se de nós de mãos juntas ao peito dizendo aquelas coisas bonitas: Deus vos guarde no caminho, façam boa viagem.
Em dois dias vi uma única pessoa de telemóvel na mão. Os pássaros e os gatos aproximam-se das pessoas, os bichos são de todos. Ninguém se zanga a toa, não levam uma pressa tonta, vivem uma espécie de imensa paz e segurança desapercebidas, como se todo o mundo as tivesse também.
(...)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O japones atras dos patos

Um dos jardins mais pequenos e feios da cidade, um japonês qualquer do mundo. Correu atras de três patos tão imóveis que quase não dávamos por eles ali. O susto deu-lhes vida, e naquele instante, com a fuga dos patos, talvez todo o universo se tenha desviado microscopicamente da sua posição monótona.
"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega.
(...)
Por gestos fez que não com a cabeça e o brinco esquerdo caiu. O que me atrai nos brincos não é as mulheres terem-nos, é o momento em que os prendem na orelha, de queixo esticado e olhos vazios. A mesma expressão, aliás, ao procurarem as chaves na carteira. Parece que se ausentam. Depois voltam a estar ali ao rodarem a fechadura."

Antonio Lobo Antunes, Migalhas

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Flash



Vinte e tres dias depois, continuo a namorar o Porto. Ter ficado longe deixou-me neste estado para sempre.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Chao de madeira

Ainda estou pasmada como quem vive um primeiro amor, tudo no Porto me encanta.
Num dia desta semana palmilhei uma boa parte desta cidade a pe, tirei fotografias e parei a olhar como se tivesse todo o tempo do mundo; vi as coisas com outros olhos novos, olhos que eu trouxe da minha ilha.
Depois daqueles primeiros dias belíssimos de frio e de céu azul, chegou uma semana de chuva e dias cinzentos. Ainda me sabe bem este tempo, tinha saudades do Inverno. Mas não sou daquelas pessoas que afirma contra maré que o Inverno é psicológico; não é. Para quem tem que levantar cedinho todos os dias e sair para a rua e apanhar transportes públicos, o Inverno assim teimoso e constante chega a doer. Mas ha imensa coisa boa no tempo do frio e mesmo não sendo possível desfrutar deste tempo a tempo inteiro, ha muitos bons momentos que so podemos viver em dias assim.
De resto fico parada minutos largos na marquise, a olhar la para fora a ver a chuva cair; a ouvir-lhe a canção, a ver os carros circular, os corpos em movimento apressado guardados por guarda-chuvas sem graça. Sinto-me confortável enfiada num pijama de urso, quentinha de manta no sofá. Desperto durante a noite e sinto paz; estou em casa. Uma casa tao velhinha, com um chão de madeira.
Fecho os olhos sempre que penso no futuro, não quero ficar ansiosa; procuro ter presente o pensamento de que tudo vai depender muito de mim mesma.
Recebi alguns telefonemas a dar-me as boas vindas. Outras pessoas preferiram esperar, não ligaram; algumas continuam a espera. Mas houve gente que me ligou de Lisboa e isso, confesso, trouxe-me um certo calor mais quentinho. De maneiras que dentro de dois meses eu ainda vou estar a cumprimentar gente. Deixa rolar, para que cansar tanto? Não.
Discute-se a TAP e eu vou comprando jornais sem os ler; um dia destes pego neles. So me apetece ficar a observar o voo das aves, ha tanta agua e tanto verde por todo lado. As tangerinas cheiram tao bem...
Não sei se vou ser mais feliz, mas acho que quando decidimos viver a nossa historia, quando decidimos que a importância de ser feliz consiste fundamentalmente em ser-se boa pessoa, tudo se vive e se pratica de forma mais tranquila.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Tantos anos depois

Comprei tulipas vermelhas.

Lado lunar

Sentada no cabeleireiro, folheei uma revista e pasmei com a pouca evolução de Portugal em alguns aspectos. Uma Cristina Ferreira dizia ao Expresso que sobretudo na zona de Lisboa da ma imagem utilizar transportes públicos, qualquer pessoa que seja vista numa paragem de autocarro corre o risco de ser considerada de classe baixa. A serio? Deixa-me rir...

Flash

Ponte de Lima

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

As primeiras compras

Plantas: Camélias cor de rosa, um Azevinho, uma Orquídea de exterior e um Ligustro.
So não comprei jasmim porque ganhei de presente.

Em casa

Hoje respirei. Caminhei sozinha por ruas da cidade, tudo me deixa tao feliz: as papoilas amarelas no largo da Trindade, mesmo em frente a igreja; o cinzento do céu e as arvores com quatro folhas por cair; a geral amabilidade dos portugueses nos serviços de atendimento ao publico, a forma como se queixam da vida difícil (e ha historias tao mas tao tristes, contadas com um sorriso); as laranjeiras carregadas; as pessoas sentadas nas esplanadas mesmo com um frio de rachar; as aves em voo picado na Avenida dos Aliados, o sino da igreja a tocar o treze de Maio; os velhos sentados no jardim do Marques a jogar cartas durante a tarde; rapazes alguns cheios de charme, que passam e me olham como se eu fosse a esposa do senhor Pinto da Costa (e eu não sei se isso e bom ou se e mau mas sei que e português); azulejos nas fachadas; o verde dos jardins que me emociona profundamente; o vendedor de castanhas que quase me fez chorar de alegria.
Sao tantos detalhes, tantas coisas pequeninas que ficaram grandes para sempre aqui dentro de mim.