sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Da Vida, quando muda

De uma ilha me fiz para sempre pássaro.
Vim ser feita de horizonte; trago as janelas e as portas da alma à mercê do vento e do mar; o meu corpo desperta com as chuvas e a minha alma sabe de cor o perfil nu das montanhas. Aprendí a ser pessima nas despedidas e a nao me preocupar demasiado com os reencontros. Aquí perdí a loucura e a fome por mais mundo; aquí olhei para dentro.
Nenhum outro lugar me poderia ensinar o que me ensinou esta ilha.
Ate sempre, querida Fuerteventura.
Muita correria nestes ultimos dias, feita de despedidas, de abracos apertados, de promessas de reencontro. Consegui ir ao teatro e em modo adeus soube tao bem rir com as caracteristicas tao particulares desta gente que agora tambem é um bocadinho a minha gente. Hoje ainda comi as papitas arrugadas que tanto adoro; e as duas ultimas pessoas a quem dei a mao foram os dois melhores companheiros de trabalho que tive nestes oito anos.
Enfim, a vida quer-se leve e essa é a sensacao que levo ca dentro.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

"Aunque parezca contraditorio, un canario se ahoga cuando no ve el mar."

Foram precisos oito anos a viver aqui na ilha, para saber, para sentir como eles.
Sao tantas coisas grandes que se leva na alma, uma delas é o mar, ficamos feitos de mar para sempre.
Esta manha fui fazer uma sessao de reiki - talvez a ultima - e a Esther brindou-me com um verdadeiro festim de oleos, deixou-me o corpo leve e perfumado. Durante aquela hora fiquei ali de olhos fechados, so a ouvir o mar, que fica do outro lado da rua. Como se do seu sal e da sua espuma se adentrasse naquela sala e participasse da cura. De vez em quando descentrava-me do mar para viajar na voz dos monges budistas, dos cuencos de metal, do som do vento, bem baixinho a entoar na sala de massagem.
Comprei Palma de Rosa em oleo, para todos os dias usar uma gota no pulso; acalma as emoções.
Foi esta noite que tive insonias pela primeira vez desde que tomei a decisao de ir embora. Nao vai ser facil.
Vou precisar de muita inspiracao, e que nao me falte o mar.
(...)

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sao tantas, imensas, coisas boas de que vou ficar longe. Gente tao grande, manhas cheias de luz, silencio, montanhas assim nuas o ano inteiro, as maos da minha pequenina, o cheiro e o colo da minha mae, a cancao do mar sempre no ouvido, pes descalcos e roupa leve, Africa no vento.
(...)

domingo, 17 de janeiro de 2016

Hoje uns amigos vieram visitar o pai. Eles tem uma quinta cheia de bicharada e onde cultivam um pouco de tudo, sao quem nos ficou com o nosso Tobias que ja deve ter uns cem anos e continua vivo e sao e feliz (amen). Trouxeram ao pai uma coisa muito bonita, que me comoveu. Para que ele se ponha cheio de saude depressa, trouxeram uma cesta de vime feita pela gente da terra, cheia de verduras, tomates, beterraba, pimentos, salsa, courgette, tudo o que possam imaginar, cultivado cuidado e colhido por eles. Que coisa mais bela!
O pai gosta destes gestos assim, cheios de profunda e desinteressada amizade. Expressou-o oferecendo-lhes uma joia da mini garrafeira dele, uma garrafa com cinquenta anos.
É Natal quando é assim.

As coisas deles

Esses detalhes minusculos que fazem do meu pai e da minha mae as pessoas mais grandes do meu mundo.
No dia em que chegou do hospital, depois de varios dias internado, sem telefone nem televisao, quando entrou em casa ja era noite, dirigiu-se a terraza e chamou-me. A mae resmungou que ele se ia constipar, e ele voltou a chamar-me. Quando cheguei perto apontou para o ceu e disse: "Esta fenomenal hoje, tao estrelado. Ali esta a ursa maior e a ursa menor esta ali..." Ficamos assim, um bom bocado a olhar para o ceu em silencio, estava de facto tao espectacular como numa noite de verao.
Depois entramos em casa e a mae comentou que os dias ja estao maiores, e eu percebi que sao eles quem mais me orienta no tempo, no espaco e na vida. Desde sempre e para sempre.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Dias de alguma tristeza, alguma introspecção.
Ja me comecei a despedir da ilha.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Bom dia

Parece que no seculo que estamos gente na Europa pensa que deveriamos voltar ao tempo de Moises, e mandar matar todas as crianças, neste caso todas as crianças arabes.
Je ne suis pas Charlie Hebdo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Na sexta-feira quando foi lançado o ultimo album do David Bowie, achei curioso que nas redes sociais nao vi nenhuma partilha. Alem de um ou outro meio de comunicacao social, mais ninguem. Vi dois videoclips e confesso que nao gostei. Causa angustia, terror, tudo menos belo.
Acho que o David gostaria de ter sentido a receptividade que convenhamos, um trabalho assim, nessas circunstancias, merece. De resto o mundo despertou para esses videoclips agora, que ele ja nao esta. Mas acho que ele sabia o mais importante: que uma fatia grossa da humanidade em algum momento gostou de ou respeitou o seu trabalho.
Eu gostei muito de um par de musicas, o demais respeitei. Indiscutivel que sera sempre um dos grandes da velha guarda, mas confesso que nao dos meus preferidos. Dezoito meses a lutar por vencer e a ocultar uma doenca, todo esse tempo a criar algo para deixar aos seus fas; acho de muita nobreza interior.
As redes sociais nao falham nestes acontecimentos; e embora me cause certa confusao tanta idolatria, de certa forma esta muito bem que seja assim.
(...)
O nosso Cristiano la viu o Messi ganhar mais um balao de ouro, e convenhamos que merecido.
(...)
E por fim, que para mim sim é a noticia do dia, a ajuda humanitaria chegou a Siria. Nao podemos imaginar o que por la se vive; gente que comeu caes e gatos da rua e ja nao sobram mais bichos, meninos e meninas ha varios dias sem comer nada... a miseria mais grande do ser humano.
Lembro-me que nos tempos em que trabalhei na accao social uma vez li um relato de uma historia em que uma menina africana quando chegada a Europa perguntava porque que a mae tinha morrido de fome se havia afinal, tanta tanta, comida no mundo.
Temos tantas respostas para dar.

A paz voltou a nossa casa.
O pai esta de volta, em recuperacao mas sem o sofrimento dos ultimos dias.
Obrigado meu Deus, prometo ser boa menina o resto da minha vida.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Dias muito dificeis

O pai esta internado. Vi-o nos bracos da morte, ca em casa, a nossa frente. Os gritos de desespero dele ainda os escuto pela casa, um medo e um frio que me entraram nos ossos e nao passam. Tanta tristeza, tanta dor... A mae diz que so lhe cheira a sangue. No hospital ficam os dois de olhos postos um no outro, num silencio longo; uma coisa que magoa.
As nossas vidas pararam.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Flash




First pics of the year

Primeiro dia de um novo ano

Começa o ano, um novo ano, cheio de oportunidade de errar e acertar. Começa o ano e eu sem perspectiva nenhuma, pela primeira vez. Cansei de tanto sonho, tanto plano; deixa rolar. Começa o ano e eu indo para longe da familia, em busca de mim; tem opçao? Começa o ano e o pai esta doente e o peso dessa dor doi mais do que falta de perspectiva o resto da vida. Começa o ano e o mundo esta ensopado em violencia e desamor; nao tem como sair disso. Mas nasceu um primeiro bebe, alguem vestiu calcinha vermelha e meio mundo cumpriu mil rituais tolos; o importante é acreditar. Começa o ano ai, nessa curva inventada em que voce sabe que para tras ja só se pode olhar. Começa o ano aqui mas na China nao; para nossa menina de quatro anos ainda é Natal; para meu gato o ano começa todo dia, desconfio. Começa o ano e eu invento que sou brasileira porque brasileiro sente tanto tudo que da nó; eu quero ver se consigo sentir que começa um novo ano. Começa o ano em que ja entramos bem avisados que o planeta esta doente; tambem começa o ano sem Henning Mankell. Começa o ano para o mais rico na revista Forbes mas tambem para o funcionario atormentado que nem sabe se vem para a rua em Janeiro. Começa o ano no Jardim de S. Lazaro onde antigamente os velhinhos se sentavam a matar o tempo, ali um dia tarda um ano inteiro. Começa o ultimo ano de vida para muita gente, feito bala no peito e ninguem conhece a lista onde nosso nome pode constar.
(...)
Ca em casa fizemos a passagem cheios de amor e com muito namoro. Hoje saimos para ficar num restaurante de pescadores, fomos servidos como reis, num dia de ceu azul e sol incriveis. Ficar com eles, assim na paz; tudo esta bem para mim. 2015 nao foi um ano facil: muitos acontecimentos e lutas, decisoes importantes. Mas chegamos juntos ao novo ano, com algumas coisas novas na linha do horizonte e sempre com a sensacao de que a vida, ainda assim, tem sido muito generosa connosco. Eu sinto paz, sinto calma, sinto vontade de partir e retomar estudos e comecar a procurar um trabalho. Ninguem disse que vai ser facil, vai ser muito dificil, sobretudo ficar longe deles. Mas sabemos que os caminhos sao assim mesmo, e ja aprendemos que nada desfaz os laços do Amor. Para nós nao ha longe nem distancia.
Feliz ano para todos, que vossos desejos que nao atentam contra os outros - so esses - se cumpram.