domingo, 6 de setembro de 2015

Depois de ler tanta barbaridade nas redes sociais, estava mesmo a precisar de ler este texto. Obrigado Maria Capaz, reconforta saber que alguem pensa assim:

"(...) Que tipo de pessoa é o teu vizinho, o teu pai, o teu primo, para se esquecer assim da história. Da nossa e da do mundo?
Quem se esqueceu dos seiscentos mil portugueses que foram obrigados a abandonar África de um momento para o outro?
Quem é que faltou àquela aula de História onde nos diziam que, mesmo depois de terem morto seis milhões de judeus, duzentos e cinquenta mil espalharam-se pelo mundo por não terem para onde voltar, já que as suas casas, os seus negócios, as suas vidas, haviam sido dizimados pela guerra e pela perseguição?
Eu sei que temos pouco, que mesmo na porta ao lado há uma avó que já não tem visitas ou dinheiro para os remédios, nem quem a ajude a limpar a casa ou a pentear o cabelo e que, eventualmente, tem netos que vão de barriga vazia para a escola, levados pela mão do pai que perdeu o emprego e nunca mais o encontrou. Eu sei. Mas por mais incrível que possa parecer, não são esses “temíveis” refugiados que prenderão cada um dos portugueses à derradeira situação onde chegaram, acreditem. Com eles ou sem eles, a nossa história continuará a correr, com tanto mais de sobrevivência como até aqui. Eles não nos roubarão os empregos, como os ucranianos ou os romenos não o fizeram. Ou as prostitutas de Bragança.
Não serão mais criminosos do que nós em frente a um filho com fome e as fronteiras são coisa tão pequena para a condição humana. Há gente a morrer todos os dias. A tentar viver, morrem. E nós, que temos uma vidinha de merda, de casa a pagar na Brandoa e carro em leasing para mais de vinte anos, temos medo que eles nos tirem exactamente o quê?
Temos medo que eles nos mostrem a nossa fragilidade. Que o que entendemos por paz pode abalar-se de um momento para o outro. Que o nosso filho não ter a mochila do homem aranha não é sequer assunto para ser mencionado, porque amanhã pode morrer a fugir de um homem qualquer com uma arma na mão, seja por que razão for.
Eu não gosto de ver fotografias de meninos mortos! Mas a cada vez que alguém se emociona nasce uma subespécie humana. A que cuida. A que se solidariza. A que vai à despensa contar quantas latas de atum pode doar porque já todos aprendemos que se vai de grão em grão e então aí, quem sabe, tanta desgraça possa fazer algum sentido.
E a História que ajudámos a construir com as nossas partidas e chegadas, com tantas mortes nossas no mar e nas fronteiras ou nos calabouços das cadeias, já nos ensinou que quando acolhemos, crescemos. Nem que seja para os lados, já que antes dos retornados não se vendia por cá frango assado.
O mundo, no sentido de terra, de planeta, de solo, não é meu nem teu. Nós apenas tivemos a sorte de nascer do lado ocidental, como as batatas. Mas se ninguém nos levantar e mudar o plantio, eu, tu, nós, eles, grelaremos, murcharemos em charco, porque é na alternância que se dá a vida. Se for preciso uma fotografia de um menino morto ou qualquer outra coisa para nos acordar, deixemos que a humanidade nos emocione e nos envolva e permaneçamos fortes na intenção de sermos sobreviventes. Todos. E principalmente: Juntos."

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