domingo, 30 de agosto de 2015

Na ilha

Ha dias em que sou tremendamente feliz aqui. A angustia que trago na alma é uma coisa minha, que de vez em quando enquanto dormita da um bocejo ou se revira em mim como se eu fosse a cama. Quero dizer, a angustia que trago em mim vai comigo para onde eu for. Por causa das coisas que vi e das que nao vi mas sei que existem. Por causa de uma forma de sentir que trago e que nao escolhi.
Mas hoje, domingo - dia em familia - tive vontade de parar a vida ali, naquela fotografia feliz. Em que os meus pais, juntos sorriam, e eu e a minha sobrinha riamos alto e faziamos caretas feias. Ela toda molhada da agua do mar aos beijos a mim a encher-me de sal. Um dia perfeito, de sol, de paz, de mimos. Um dia em que comemos uma cazuela de pescado divina, junto ao mar.
Para nao esquecermos,  - e darmos as graças, sempre - pela sorte que temos em vivermos estes dias assim tao sossegados. E porque estamos juntos - sobretudo porque estamos juntos - neste pequeno paraiso.

sábado, 29 de agosto de 2015

Sentir, assim

"O sítio onde moro em Lisboa é uma aldeia. Tem merceariazinhas, lojecas, cabeleireiros pequenos, uma constelação de restaurantezitos, sapateiros, costureiras, capelistas. Não o habitam pessoas ricas, o que se percebe pelos automóveis, pela roupa, pelas caras. Toda a gente se conhece. Há pombos a sujarem os tejadilhos (ainda bem que as vacas não voam) gatos à Stuart Carvalhais e, no que respeita ao meu quarteirão, do algeroz para cima sou o melhor escritor. Ignoro se sabem o que faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor doutor e quem me trate por senhor António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um carpinteiro. (...) É à hora alegre e triste em que os candeeiros começam a acender-se e uma fininha melancolia, como escreveu o poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa (quem aqui não sentiu esta nossa fininha melancolia) entra devagar em nós, doce, quase agradável, com a lembrança das pessoas de quem gostámos dentro, transparentes, a sorrirem. (...) Vivo só. Não me custa. Quer dizer às vezes, à noite, custa, mas faz de conta que não custa. Ando a escrever um livro que não faço a menor ideia quando acabarei: são tão difíceis as palavras e demorei anos a dar conta disso. Ao princípio era canja. Até a gente perceber que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal: então começa a angústia. Um pouco mais tarde percebe-se que há uma diferença, ainda maior, entre escrever bem e obra-prima: então a aflição é completa. De forma que aqui ando eu, de caneta na mão, na minha aldeia no centro da cidade (...) Bares de alterne perto, com uma fila de taxis à espera: tudo isso cheira a miséria rasca. Onde pára aquela que morava no alto da cidade? Num degrau à espera? Nasci de uma mulher e há ocasiões em que me esqueço disso. Devia lembrar-me o tempo inteiro. Onde pára o meu pai que, de certeza, se foi embora do cemitério para a companhia dos seus cachimbos, dos seus livros. Dizia - Bem vês, e fazia um silêncio antes de continuar. Bem vejo o quê, pai? Os pais estão entre nós e a morte. Se calhar um homem só se torna homem depois do pai morrer. Homem no sentido mais profundo do termo, qualquer que tenha sido a nossa relação com ele. Depois do enterro do meu avô o meu pai fechou-se no escritório e pôs Bach tão forte que se devia ouvir na Venezuela. Ficou para ali horas a ensurdecer o mundo. Quem aqui não sentiu esta nossa fininha melancolia? Chamo-me António. Ao encontrar-me de manhã para a barba penso - Chamo-me António um nome tão comum, de pobre. Se fosse rico chamava-me Bernardo ou Lourenço ou Gonçalo. (...) António porque os meus dois avôs eram António. O que será de mim? Gosto do andar onde moro, não penso mudar-me mais, assenta-me bem nos ombros. (...) O mendigo do costume pede-me cigarros: dou-lhe o que estou a fumar. Não fala, murmura, quase não se aguenta nas canetas. Nem sequer cheira mal, isto é anda tão sujo que está para além dos cheiros. Olhinhos piscos, dedos incertos. Isto junto do templo adventista onde nunca vi ninguém entrar, frente a umas escadinhas que conduzem sei lá onde. Que bonitos os pés das mulheres agora, em Julho, que linda a sua forma de andar. Pouso a caneta, olho as minhas mãos. Estão vazias. Mas tenho a certeza que, se as juntar, ao abri-las sai uma pomba branca. Como os ilusionistas do circo na época em que eu menino. Aí está ela, cheia de arrulhos, a bater as asas em mim."
Antonio Lobo Antunes, Cronica da pomba branca

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Flash

Aos 36 apetece-me começar de novo - outra vez.
Meter dois trapos na mala, e ir. Nao avisar ninguem, chegar a minha cidade e dormir uma semana inteira.

domingo, 23 de agosto de 2015

Aqui nao ha arvores; para perceber o outono é preciso ter uma certa enfermidade no olhar, como uma febre, um querer intenso e repentino. Vi cair duas folhas aqui na ilha e sei que em alguns lugares do mundo - como na minha cidade - tantas e tantas folhas caidas ja anunciam a chegada.
Ha gente que nao compreende esta conversa sobre saudades do outono, mas ainda bem que é assim: que algumas pessoas gostam tanto do verao como eu gosto do outono. O importante é gostar, o importante é viver, muitos veroes e tantos outonos.

Para curar a tristeza

Ficar a sós comigo. Caminhar descalça pela areia junto ao rebentar das ondas, numa praia cheia de gente, cheia de miudos a rir e a correr. Caminhar debaixo de um sol vivo, num dia de um agradecido vento. Caminhar de olhos fechados e perceber a fronteira onde se misturam os cheiros a mar e nivea, sentir paz nesse lugar, saudades nem sei de quê.
(...)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"(...) Nunca he llorado por nadie, Max. El dia que murio mi abuelo, yo tenia solo ocho anos. Por primera vez en mi vida intente llorar, pero no pude. Me sentia muy triste, muy vacio... y muy seco. Llegue a pensar que era una mala persona por no llorar por alguien tan importante para mi. Como si no lo hubiera querido. Como si le hubiera estado enganando. A el, a mi, a todos.
En el entierro, recuerdo mirar a mi alrededor y ver a mi familia entera abrazandose desconsolada. Aquel conjunto de buenas personas que demasiadas veces no se entendian, aquellos allegados que cuanto mas lejos se encontraban mas se querian, de pronto, se sentian mas unidos que nunca, en el unico lugar del que es imposible salir solo: el desconsuelo. Y me parecieron tan honestas, tan sencillas y tan hermosas todas esas lagrimas derramandose a la vez. Porque fue aquel dia cuando descubri que las lagrimas se derraman, Max. No se caen, ni se tiran, ni se vierten. Se derraman. Como si se hubieran estado acumulando a lo largo de los anos en las vasijas invisibles del querer. Como si cada dia feliz que hubiera pasado con mi abuelo, cada momento especial de los que citaron en su funeral, todos y cada uno de mis familiares hubiesen ido guardando una a una las lagrimas que derramarian de golpe un dia como aquel. Todos y cada uno, menos yo.
La siguiente en marcharse fue mi madre. El dia que nos dejo, alguien me borro la infancia y me dejo desnudo de nostalgia a la intemperie de la madurez. Recuerdo que no podia llorar, porque el cuerpo inerte de mi madre ya no era mi madre. Era una senora que se le parecia mucho, estirada y con los ojos cerrados, pero le faltaban justo las tres cosas que hacian que una senora cualquiera se conviertese en mi madre: sus ademanes, sus tics y sus gestos. Ese dia descubri que la muerte consistia precisamente en eso, en el cese de todo movimiento. Y de ahi que, mas que triste, estubiese intrigado. Si mi madre no estaba alli, donde estaba? A donde se habia llevado tanto amor desinteresado, tantas horas dedicadas sin recompensa alguna, tanta preocupacion? Porque el dia que se marcho mi madre se fue la unica persona que se preocupaba por mi, dejandome un poco mas solo ante todo lo que viniese, que desde entonces siempre seria peor que lo que se habia ido.
Con el paso de los anos, mi corazon se fue llenando de vacios, a mis recuerdos les aguijonearon las ausencias, pero mis lagrimales siguieron sin echar ni gota ni gota. Por mucho que me abandonaron, me dejaran, me humillaran y me hicieran dano, a mi me seguia siendo imposible sacar mis emociones atraves de los ojos. Si hay algo mas triste que estar triste es estarlo y no parecerlo.
Me case, Max, pero me case solo porque a ella le hacia ilusion. No tuve mas remedio que emocionarme de prestado, porque sabia que si usaba mis emociones, jamas estarian a la altura de la ocasion. Asi que le pedi prestados sus suenos y los puse en los huecos que habian ido dejando mis frustraciones. Como te puedes imaginar, tampoco funciono. Aunque los riegues todos los dias, a los suenos prestados no tardan en salirle reproches y culpas, los peores hongos del alma.
Entre tanta ida y venida, conoci casi todas las edades de la soledad, me salio un callo justo donde palpitan las emociones y me fue cada vez mas dificil demostrar lo mucho que me dolia seguir sufriendo.
Un bello dia, cuando ya me habia abandonado toda esperanza de sentir y hacer sentir que sentia, aparecio ella. Ella, que todo lo hizo sin saber que lo hacia. Ella, que todo lo cambio sin querer. En cuanto la vi, automaticamente empece a descubrir el sabor amargo y salado del llanto. Porque la he llorado, Max. La he llorado mucho y a demasiada distancia. Bajo la lluvia, mezclando mis lagrimas con las del cielo, desde el cierre derrotado de cuaquier bar o bajo la media apertura de su ventana, da igual. La he llorado hasta quedarme sin aliento.
De hecho, si nunca te ha ocurrido, eso es que nunca has querido por encima de tus posibilidades. Y si no has querido por encima de tus posibilidades, tu corazon no ha pasado de ser un organo muscular hueco que impulsa sangre.(...)"
Risto Mejide, in Que la muerte te acompane

domingo, 16 de agosto de 2015

Dia de praia em familia

Dia para aproveitar a luz gigante do Verao, a preguica tao tipica deste tempo, a beleza das cores, a lassidez nas gentes e nos bichos, muita agua de mar, pes descalcos, roupas leves, a vitamina do sol.
Que seria de nos sem estes dias assim, grandes e belos.

Livros e mestres

Eduardo Galeano

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Agosto e chuva, tao bom. Um cheiro a terra virgem, a mato feliz. Uma tregua do sol.
Vi quatro folhas voar e senti-o, o outono. Como sempre, tao discreto na chegada...
Quando tengas ganas de morirte
esconde la cabeza bajo la almohada
y cuenta cuatro mil borregos.

Quedate dos dias sin comer
y veras que hermosa es la vida:
carne, frijoles, pan.

Quedate sin mujer: veras.

Cuando tengas ganas de morirte
no alborotes tanto:
muerete ya.

JS

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O restaurante mais bonito da ilha



Awarded multiple times by the Guide MICHELIN

Um lugar perfeito, uma cozinha excepcional, um atendimento impecavel, umas vistas e uma tranquilidade tao tipicas da belissima Betancuria. Ali, depois de sairmos, fica-nos a alma. Ficamos com vontade de levar la todas as pessoas importantes na nossa vida.

Flash


Numa revista qualquer

Conselho da semana: Não trabalhes mais do que vives.
(Nem escolhas gente assim para a tua vida.)

August, golden days...

É o que tenho feito: ficar mais com os meus.
(Porque a vida também é feita de dias felizes.)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Nostalgia

Algumas pessoas tem alma de gato.
Sinto que este tempo se vai acabar. Apetece-me ficar mais com os meus, amar muito, planear temporadas mais largas no Porto, ir atras de algum outono e calmar as saudades, sorrir desde dentro a quem passa.
(...)

Flash




Choose green. Allways.

Pequena B

Todos os domingos os avos levam-te a andar a cavalo. Tu desfrutas dos poneis, ja fizeste amigos e houve alguem que te disse que dois dos poneis sao teus, que vivem ali mas sao teus. Tu acreditas tanto nisso que quando se acaba o teu passeio dizes muito seria ao cuidador dos bichos "Me los cuidas, vale?"
Sempre gostei de cavalos, sempre. Mas nunca tive a sorte dos teus dias, tive a sorte dos meus. No meu tempo a avo ficava feliz se tivesse dinheiro para me comprar uns sapatos, ou os livros para a escola.
Fico feliz que tudo tenha mudado tanto em tao pouco tempo, mas certezas mesmo so vou ter quando souber que nao cresceste uma adulta mimada e egoista.
(...)

Ao virar da esquina

Grandes verdades

"Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. (...) Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro."
MEC

(Do blog da Mia)

Chegou Agosto

Nos primeiros dias tivemos a sorte incrivel de alguma neblina e quatro meias gotas de chuva.
Tenho bebido sidra gelada (uma alema com frutos vermelhos e lima), agua de coco made in Brasil, vinho tierra de volcanes - branco, gelado - e sem grandes pressas, desfrutado de longos passeios estilo turista.