domingo, 3 de maio de 2015

A minha Mae

Nasceu em Angola e emigrou para Portugal numa viagem sem regresso, aos seis anos foi dada pela mae a uma senhora chamada Luisa que nao conseguiu impedir que ela fugisse de casa para regressar a casa da mae, no percurso da fuga foi encontrada perdida durante a noite no mato por uns africanos que lhe perguntaram quem era e porque chorava, tao pequenina respondeu-lhes que lhe doia muito o coração (acho que lhe doi ate hoje). Na escola chamavam-lhe pastorinha, estudou pouco, é costureira. Casou menor de idade, teve quatro filhos e perdeu um, encontrou o grande amor da vida dela depois dos trinta, com ele pensa voltar a casar a caminho dos sessenta, venceu um cancro maligno faz vinte anos, lutou durante oito anos lado a lado com o meu irmao que padeceu de depressao, enfrentou um porquê sem respostas quando uma filha tentou o suicidio, tem uma neta linda a quem costurou desde os primeiros lencois ate a fantasia de carnaval deste ano, conversa com o meu gato e entende o que ele diz, quando vai dormir tem sonhos e sabe se nao estamos bem, quando viaja e nos deixa as plantas ao nosso cuidado elas morrem com saudades dela, tem sempre objectivos novos, eternamente insatisfeita quer sempre mais da vida; e eu poderia ficar aqui toda a tarde a escrever sobre a historia de vida da minha mae.
Mas nao ha palavras nenhumas que digam o quanto ela é bonita para mim, o quao cheio de gratidao tenho o meu coração por todo o Amor que ela sempre nos dedicou, pela entrega, pelas lutas diarias, com toda a dureza que ela sempre teve mas que afinal de contas foi por causa dessa dureza que ela sempre foi tao brava e vitoriosa na luta por nos.
Somos muito diferentes e discutimos muito, ambas temos ideias muito proprias, ela ensinou-me a ser assim. Com o passar dos anos percebo que ela nao é eterna como eu pensava quando era menina. A pele enrugada, o brilho do olhar como um cristal embaciado, a necessidade de nos cuidar cada vez mais (eu pensava que com os anos isso se fosse esbatendo), uma certa pressa na vontade de querer deixar tantas coisas em ordem...
A minha Mae - a minha - tal como um dia disse a querida Rosa Lobato Faria "Foi o meu primeiro e grande Amor. Depois dela todos os outros me pareceram demasiado pequenos."

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