domingo, 29 de março de 2015

Flash

"Era muito bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não era uma coisa para ela."
Antonio Lobo Antunes
Paramos em Santa Comba, em busca de vestigios de Salazar. Pedimos informaçoes na rua, olharam-nos com um desprezo total, como se dentro do carro tivessemos a mesmissima peste negra escondida, como se fossemos em pessoa um atentado terrorista, como se as preguntas que fizemos fossem coisa que nao lembra nem ao diabo. Surpreendeu-me, porque estavamos em Santa Comba. Talvez tenha sido so um caso de azar, pode ser.
A Historia, boa ou ma, menos boa ou menos ma que acho que é disso que realmente se trata, continua a ser Historia. Aqui em Espanha acontece mais ou menos o mesmo em relação a Franco, aqui na ilha no ultimo mes retiraram-lhe medalhas atribuidas sei la em que ano. Acho ridiculo, absurdo, que o ser humano gaste energias nisso. A Historia nao se apaga, deve estar bem presente para reflectirmos e aprendermos com ela, para driblarmos com mais sapiencia os dias do futuro. Que os Homens de hoje retirem medalhas atribuidas pelos Homens do passado, nao diminui as vitimas, infelizmente. Nao dignifica, nao retira nem atribui respeito. Apenas conta uma mentira sobre a realidade daqueles dias. Que os governos politicos nao queiram lugares de culto ou veneraçao, sob o risco de ressuscitar velhos monstros? Eis a questao. E aqui poderiamos abrir um parentesis sobre investir mais na formaçao moral do ser humano, em vez de atar o touro com cordas de papel.
Eu ca acho que deveria ser crime apagar memorias de um tempo, seja ele qual for.
Ao ler uma entrevista ao livreiro-gerente da livraria Lello e irmao, no Porto, dei comigo a reflectir sobre um receio que nao pensei que fosse algo tao plausivel para as pessoas do ramo: cada vez mais lemos o que outros decidem, quando eles decidem. Efectivamente penso que acontece assim. Nunca fui muito maria-vai-com-todos; nunca vi o Pirata das caraibas nem As cinquenta sombras de Grey. Quanto aos livros sempre que entro numa livraria normalmente onde menos tempo perco é nos top das vendas. Para ser sincera o que ainda me apaixona febrilmente sao os Alfarrabistas, perco as horas e adoro encontrar anotaçoes escritas ha uma porrada de anos. Mesmo agora quando estive na cidade, procurei na FNAC e na music store Tubitek um determinado album de musica e nao foi possivel encontra-lo porque tenho o azar ou a sorte de andar a ouvir musica que so se consegue por encomenda.
(...)

Aqui a ler

Antonio Lobo Antunes esta entre os meus tres ou quatro escritores preferidos. Ler o que escreve sobre a mae, comove-me sempre. E depois a forma crua e nitida da sua escrita, tao genuina, faz-me ter a certeza - mesmo - de que sera um dia o nosso proximo Premio Nobel da Literatura.
Faz algum tempo que nao lia o blog da Martine. Hoje fez-me chorar:

O blogue da Martine: Dear Santa:

quinta-feira, 26 de março de 2015

Programa infantil

Nao sou mae, nao quero ser. Aparte isso tenho uma sobrinha que adoro e ainda que ela nao existisse continuaria a achar que as nossas criancas sao o melhor que o mundo tem. Mas hoje sai do teatro perplexa. Fomos com a B ver um teatro de marionetes, uma coisa girissima montada por um italiano e uma australiana de origem japonesa. A sala estava cheia de pais e maes todos pipis e miudos de cara redonda e oculos. Durante o teatro alguns pais foram chamados varias vezes a atencao por estarem com os telemoveis a gravar e a tirar fotografias, mesmo assim continuaram, com um comportamento que para mim e dos mais vergonhosos. Como querem que os filhos cumpram regras? Os miudos portaram-se muito mal, incluindo a minha sobrinha. Todo o teatro foi em volta de musica, num determinado momento entrou uma marionete representada por um cantor de jazz, algum miudo gritou "Preto!" que aqui se diz negro por nao existir de todo a palavra preto mas o tom do miudo foi do mais pejorativo que possam imaginar. E todos os miudos desatarm a rir. Ao lado desse menino estava sentada uma menina de cor.
O teatro foi belissimo, divertido, e cheio de sensibilidade musical. Acho que seria muito mais util se o levassem aos meninos do Quenia ou da Siria, acho que esses, sem quase nenhuma base educativa, iriam saber comportar-se melhor. Tanta coisa com os colegios privados, ai que o Manelinho anda no violino, e depois isto.
Queixam-se que os nossos pais erraram em dar-nos tudo, ha quem se atreva a culpar-los pelas nossas dificuldades actuais; eu penso que os pais de hoje sao muito piores do que foram os nossos, o futuro o dira.
Nao estou a dizer que e facil. Imagino que da uma grande trabalheira criar um miudo e transforma-lo num adulto que nao seja insensivel, egoista e mimado. Eu pessoalmente, nao sei se seria capaz.

Flash

Pequena fatia de arvore

Gosto de arvores. De pedras. Das arvores, muito dos limoeiros.
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Flash

Lembro-me que no ano em que entrei para a Universidade, eramos cerca de cento e cinquenta alunos no primeiro ano do curso de Psicologia. Nunca mais me esqueço de uma das primeiras frases que ouvi da boca de um professor, logo nas primeiras aulas:
"As probabilidades indicam que nesta sala de aula, um dos cento e cinquenta alunos é um caso de comportamento desviante."
Lembro-me que nos rimos enquanto olhamos uns para os outros. Ao final do curso chegamos cerca de quarenta, espero que o psicopata tenha ficado pelo caminho.
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Dos dias em casa

Trouxe comigo livros, vinhos e compotas. Encontrei dias de ceu azul, frios, como eu gosto. Descobri um Porto frenetico, renovado de vida, um Porto que tem todas as boas razoes para andar nas bocas do mundo. A cidade cresceu nestes quase oito anos. So o verde dos parques e a altura gigante das arvores se mantem, so a vista desde a ponte mantem aquele entardecer sobre o rio o mais belo de todos. Caminhar a pe, ficar duas horas numa livraria, comprar Miguel Torga e Eugenio de Andrade. Passar pelo santuario de Fatima, e chorar. Beber agua de nascente na Serra. Sentir a generosidade e entrega que se mantem como caracteristica do povo portugues. Ficar a sos com os meus pais, observa-los, impacientar-me com eles e depois sentir ca dentro que um dia vou morrer de saudades destes dias que passamos juntos. Ficar da janela da marquise a ver o sol ir embora, fechar os olhos e escutar os ruidos da cidade a latejar, grava-los no silencio do meu coracao. Para nao falar no Verão constante que sempre encontro no abraço dos meus amigos, sentir esse aconchego na alma por estar perto; dizer ate ja e ser ate ja.
(...)

Gostava mesmo de lá ter estado

Em Gran Canaria, estes dias. Para ter tido o prazer imenso de conhecer o excepcional filosofo Zygmunt Bauman.

P: Aos noventa anos, o que é a felicidade para o pensador Zygmunt Bauman?

R: Sobre isso digo o que disse Goethe, o grande poeta romantico alemao ao que aos noventa anos, a minha idade actual, lhe fizeram a mesma pergunta. Ele respondeu que recordava ter tido uma vida muito feliz, mas acrescentou que nao recordava ter tido uma semana inteira feliz. Trata-se de uma reflexao muito profunda porque significa que a felicidade nao consiste num estado ininterrupto de prazer, senao que sao momentos que surgem e so acontecem quando superamos retos, dificuldades e encontramos formas de resistir a pressao. Hoje em dia vivemos um tipo de enfermidade, de praga no mundo moderno. Supoe-se que todos os dias deveriamos estar felizes e que a felicidade se deve coleccionar para alcancar o melhor nivel de vida. Ha uma etica que nos sugere que a felicidade nos é devida, e que todos os que estao a nossa volta deveriam contribuir para ela, pelo nosso direito a ter-la. E é uma doenca que basicamente se formou pela sociedade do consumo, em que as estradas no caminho para a felicidade passam obrigatoriamente por lojas... Isto é muito destructivo, primeiro porque nao é real esta forma como se define a felicidade, e segundo porque tambem é insostenivel para o nosso planeta.

La Provincia, Gente e culturas
24 Marzo 2015

domingo, 22 de março de 2015

A proposito do dia mundial da Agua

Chove a cantaros na ilha.

Apontamento

Acho graça quando alguem revela algum cuidado na conversa ou solta alguma piada de mau gosto e fraca sensibilidade sobre o facto de eu ter 36 anos e estar sozinha. Eu nao vou ficar com alguem para poder fazer programas de casais com amigos, nem porque a sociedade acha bonitinho e menos ainda para que outros nao me excluam. Nao tive ainda a sorte de gostar de alguem que goste de mim, e quem gostou muito nao veio nunca morar no meu coraçao. Simplesmente nao tive essa sorte.
Mas tambem nao tenho o azar de milhares de relaçoes que sao ralaçoes, de tantos compromissos que sao como contrato bancario, de muita historia sem tesao e sem amizade. Eu espero ter a decencia e lucidez de nunca querer menos do que aquilo que eu acho que me vai fazer feliz. So isso gente.
Sou uma mulher comum; acredito no amor e tal como todo o mundo, espero um dia poder viver a minha historia.

No regresso, a mesma musica

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Amendoeiras em flor
2015

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Do que ainda se ve no meu Portugal pequenino, tao grande...

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Na Serra

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O Porto promovido a Cidade das Camélias

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Parque da Cidade

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Hello Spring

domingo, 8 de março de 2015

On vacation

Malas feitas. Nao voltar aqui durante duas semanas. Levar as maquinas fotograficas, muita vontade e inspiracao no olhar. Agasalhos para aproveitar os ultimos dias de frio na minha cidade. Desconectar da metade de mundo que fica ca, recarregar baterias e fazer tudo sem pressa. Despertar e olhar pela janela do quarto para os enormes e velhos platanos que moram na minha rua, e que ja devem estar cheios de Primavera nos ramos. Acender velas numa igreja portuguesa, sentir o silencio e a paz de estar em casa. Caminhar, ver o mar, sentir a serra, desfrutar da neve. Rir alto, beber bom vinho.
Fazer as pazes com a Vida, é disso que se trata.

sábado, 7 de março de 2015

Flash

O meu porto seguro

A minha casa, o meu sol de todos os dias da vida. Sao eles, os meus pais. Viajarmos os tres sozinhos, ficarmos algum tempo juntos, longe de tudo e perto de nos, resulta-me tao valioso como o mais grande dos tesouros.
Aconteca o que acontecer na minha historia, eles sao o grande Amor da minha vida.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Os primeiros dias de sol aberto

Esta tarde, desde a varanda de casa, percebi que uma quase imperceptivel alteração do cheiro do mar anuncia calor.
Sabe tao bem.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A vertigem dos ultimos dias, vespera de umas ferias que se esperam feitas so de tranquilidade, a vontade grande de acordar em casa, de ouvir falar em portugues, de sentir o coracao bater mais forte dentro de cada abraco que me espera.
Vai ser igual ao primeiro banho de mar do ano, vai lavar-me a alma e deixar-me nova.