quinta-feira, 25 de setembro de 2014

As profissoes do bem-estar

Sao algumas as razoes porque depois de exercer a Psicologia durante sete anos, cortei pela raiz e levo ja sete anos sem voltar a exercer. Ha inumeros factores de orgulho - considero que era realmente boa no que fazia e algumas das pessoas de maior relevo na area verbalizaram algumas vezes qualidades minhas a nivel profissional. Creio que me destaquei logo desde a universidade.
Depois foram anos duros, de ver o mundo de frente e perceber que aquilo era o que deveria fazer o resto da minha vida sem parar, mas que ao mesmo tempo me estava a matar por dentro. Juntaram-se outros factores e levantei voo. Quando cheguei a ilha pensei que seria bom tirar esse tempo sabatico que tantas vezes nos faz regressar ainda melhores profissionais. O tempo foi passando e eu acomodei-me a area da hotelaria, enviei um curriculo apenas duas vezes especialmente por pressao familiar. Nada. Continuo parada e sem sentir que devo voltar.
Folheio revistas e continuo a pensar que a decepcao que sinto em relacao a esta area vai mudar a qualquer instante, mas ainda esta muito presente. Os profissionais que saem para o mercado, e que inventam doencas de moda, que justificam o que pese embora tenha uma justificacao mas que jamais deve ser impunivel, que fazem desta profissao um leitmotif para vender a banha da cobra, pertencem a uma corrente moderna, bem equipada, mas sem vocacao. Ha gente boa, muitissimo boa. A uns quinze anos atras os professores que mais me fizeram sentir perdidamente apaixonada pela area em si, foram senhores ja de idade superior a cinquenta anos, gente da velha guardia, que possivelmente ja nem exercem mais a profissao. Eram eles o director da Psicologia Medica no Hospital Geral de S. Joao do Porto, o coordenador da Psiquiatria forense do Hospital Magalhaes de Lemos, e outros. Os professores que na altura me pareciam apenas um lugar comum da disciplina, sao os que hoje dao as cartas quando entro na pagina online da faculdade. Sao a nova guardia, o futuro, os que descobriram o espectacular sindrome pos-vacacional e outros. Nao me identifico, e confesso que as vezes me sinto triste com o espraiada que esta a Psicologia. Deveria ser tao cientifica e seria como algumas outras disciplinas.
Sempre fui especialmente apaixonada pela area criminal. Mas o mundo tal como esta agora nao oferece saidas para gente que tem certos valores adquiridos ja antes mas tambem com a formacao profisisonal. Um pederasta jamais deveria voltar a viver em liberdade total e absoluta. A Psicologia deveria trabalhar emparelhada com a Justica como amantes famintos. Elaborar perfis com objectivos serios, nao apenas para servir e alimentar um sistema falido e cheio de falsas aparencias. Reinserir valorizando sempre o individuo sem considerar ou salvaguardar a seguranca e estabilidade social de uma comunidade, nao cabe dentro da minha perspectiva profissional. Vi colegas meus fazerem isto algumas vezes, nao por vontade propria, mas porque e o sistema.
Deve ser por isso que impressionantes e demoradas operacoes policiais para prender um pederasta que ja ha dez anos cometeu delitos por abusos de menores, nao me espanta nem me impressiona. Temos exactamente o que semeamos.
De resto conheco alguns medicos da velha guardia, gente que ja nao exerce a profissao nao por vontade propria mas porque o governo retirou do mercado gente que esta no auge da carreira, no seu melhor momento a nivel de conhecimento profissional, porque sim. Para dar lugar a outros que precisam de crescer. Compreensivel mas nao razoavel. Cabiam todos, e os que estao tem muito que aprender. Fizeram isto com o meu hematologista, considerado um dos melhores da Europa, o unico que ao fim de quinze anos de crises, me detectou o problema exacto. Proliferam os cirurgioes esteticos - li que ja estao a implantar o terceiro seio??? - os que te retiram a perna esquerda numa cirurgia quando a perna doente e a direita, os que te retiram a ligua num cancer de garganta quando ja sabem que o cancer esta espalhado e tens semanas de vida e dessa maneira te roubam descaradamente o bem estar dos teus ultimos dias - como fizeram a um companheiro meu de trabalho, os medicos de familia com apenas oito restriros minutos para atender um paciente e que te cortam a frase e dizem sem escrupulos mesmo que ja tenhas cinquenta anos e todas as doencas do mundo "Acabou-se o tempo, marque outra consulta.", e os centros de saude como o meu que ja so tem medicos arabes. Nao se trata so de aprender, de oportunidades, de que a gente de agora la para os cinquenta vai ser tao boa ou melhor do que os meus grandes maestros na universidade. Trata-se de instinto, de vocacao, de valores e limites.
Proliferam as profissoes de bem-estar que a moda decide, que os meios vendem, que ficam bem, que as tantas nem fazem grande trabalho, mas que andam nas bocas do mundo. Conheco uma maestra de reiki e outras terapias naturais, que ultimamente da consultas particulares como terapeuta, ou seja faz o que fazia eu num gabiente fechado com um paciente sentado. No meu tempo havia mais respeito por essa palavra, nao era qualquer pessoa que a poderia utilizar, no caso desta pessoa nem a universidade foi. Mas vive num meio pequeno, tem coisas girissimas na internet, o apoio das entidades certas, mil e um cursinhos de coach (como nao?), e tudo bem.
Tenho alguma revolta interior. Sei que existe um descontentamento geral em gente de diversas areas profissionais. Sei que algum dia vou regressar. E sei que vou encontrar a selva ainda mais agressiva.
Esta manha retirei do bau as minhas grandes biblias a nivel profissional. Os meus livros estao amarelos, cheiram as bibliotecas velhas. Vou voltar a reler, embora saiba que hoje os consideram desactualizados. Enjoo profundamente alguns manuais actuais, cheios de bulas de salvacao e pilulas de bem estar. Vou recomecar visitando lugares antigos onde me perdi de amores e me enchi de valores, e ver se alguma coisa muda ca dentro.
Quem sabe 2015 seja importante neste sentido.

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